O céu enegreceu de vez. Não há retorno depois do
ponto-limite, então, aqui estou eu, num barco à deriva. Sem chamada de
emergência, sem mapa, sem volta. A vida concebe nossas causas, nós determinamos
as consequências. A benção da existência humana é a escolha, a desgraça,
também. As lágrimas, como é sabido, são o sangue da alma, contudo, não valem um
vintém no câmbio da vida. A moeda de troca é a dor; e de dor em dor, as
lágrimas perdem valor. Ou seja, uma lágrima depois dos vinte é mais cara. O
alívio torna-se objeto de luxo, e os prazeres esdrúxulos e antes estranhados,
depois enaltecidos. Pois, a única alternativa que o destino nos deixa é uma
auto-felação numa tentativa errônea de compensação. Convenhamos: quando se está
perdido num deserto árido e morto, qualquer sombra é palácio.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
segunda-feira, 21 de setembro de 2015
Borderline.
Meus lábios, sempre serrados à serenidade, mentem sobre o
que me cobre os olhos. Não há choro. Porém, há o risco de avalanche sempre
eminente. Sirenes de terremotos. Sentinelas que vigiam um mar predador que
espreita minha vontade. E anjos que guardam meu segredo: eu sou uma maldição. Um
cio descontrolado e castrado mascarado pelo sol que se estende acima. Um canal
que se obstrui e o sangue que flui pelos pés. Os dias se tornam mais exaustos
quando não existe opção de caminho e o músculo rasga, descarrega minha força.
Gladio impetuosamente contra a manada que conflita para entrar em controle. Há
várias cabeças de leões no quarto quando fecho a porta, uma a mais no dia
seguinte. Há várias marcas que trago no corpo; e a súplica por uma queloide que
seja, contudo, o líquido vermelho ascende à luz e jorra – nem rápido, nem
devagar, apenas continuadamente. Sou feito de carne e sangue. Eu sinto muito – não
falo de lamentação, mas literalmente. Uma infeliz literalidade.
Hoje estou cego,
também. As luzes, sempre tão fortes, encandeavam tudo ao redor. Só existia a
luz azul, ou a vermelha, uma preta ou uma branca. Nunca pude enxergar além do
brilho. Nunca pude compor uma paisagem inteira. Contudo, veja a minha beleza. O
sangue que verte da minha carne é vermelho vivo, meu espírito aflora. O sangue
escorre pelo braço e eu escrevo em letras garrafais:
“Todo e qualquer ser humano é perdoável, pois a dor – qualquer
que seja – é o câmbio da vida.”
quinta-feira, 16 de abril de 2015
Afogado.
Hoje a casa está inundada. Desde a tua partida, a água vem
se acumulando pelos cantos, fazendo poças, inundando os cobertores que serviram
de teto aos nossos corpos. Tenho me afogado com frequência. E agora eu te causo
a sede, te deixando à mercê das águas mais vagabundas para te saciar. Por mais
que me preocupe, sei que não devo. És dono das tuas escolhas, do teu destino e
da tua desgraça. Só não podia desmoronar junto contigo, seria injusto. Tenho
água demais e tu sabes. Posso matar a sede de qualquer um que se encoraje a
adentrar no meu recinto, tomar um café e dividir as lamúrias comigo. Por isso,
eu escolhi te deixar da porta para fora. Antes morrer afogado num amor que não
doei, que aceitar de bom grado as tuas adagas.
segunda-feira, 23 de março de 2015
Guerra.
O último verso de uma poesia é o livro que se fecha. Bem como
um sonho ao amanhecer, não passa de mero esquecimento.
Hoje, meus passos vêm a sós. Pés calejados e mãos feridas de
um esforço desumano em troca de nada. Não que eu veja o amor como uma guerra,
mas me pego vestido para o campo de batalha. Daria um rim por qualquer armadura
que me fornecesse um pouco mais de equilíbrio.
Tudo em ti, agora, me afugenta. Traz a raiva e a mágoa. E o
amor que tive, agoniza. Como sempre me colocaste, eu ainda estou balançando por
entre um vale de incertezas. Tão perdido que nem ao menos saio do canto. Quem
me vê imóvel, enxerga a comodidade de uma certeza que ainda não me cabe; mal
sabem, estou entre a cruz e a espada. domingo, 15 de fevereiro de 2015
Lixo.
O tempo se esparramou por aquele quarto minúsculo que
julguei que seria suficiente. Os momentos se converteram em lembranças e se
amontoaram. Dentro de quatro meses, há minutos demais, horas demais, finais de
semana demais. E hoje eu estou apavorado. Produzimos o lixo mais lindo e
valioso do mundo, contudo, nenhum de nós irá recebê-lo de bom grado caso tudo
termine num tribunal. Tu o empurrarás para mim. Porém, francamente eu me deixei
poluir. Também não sei por onde começar a faxina, talvez nem queira. Talvez não
haja mais o que se fazer. Permaneço, então, entre a cruz e a espada. Entre a
beleza e o medo. Vivo a nós como se tudo
fosse uma fábula de papel que logo estará se desintegrando. Eu, como um
escritor decadente, acabei prolongando demais o final feliz e o ponto final se
perdeu dentre as entrelinhas. Agora tenho medo até de encontra-lo. Não sei o
que faria com tudo aquilo que produzimos. Escrever, não mais! Então, me chame
um conciliador e que se faça a partilha dos bens. Eu, de certo como vítima,
exijo todo o teu desapego e de herança a ti, te deixo todas as lembranças.
sábado, 31 de janeiro de 2015
Sonho.
A alvorada me dá os últimos goles da tua ilusão. A noite se
foi e o sonho escorreu pela janela. As melodias me deixam com a sensação do
sabor, mas não me alimentam. O Sol vem para queimar minha pele e me despertar
para a dor cotidiana. Os passos apertaram e as minhas costas gritam por tua
imagem, assustam meus olhos. Meu corpo magro e carente está exausto o dia inteiro,
quase implora por cama, sufocado numa mentira dita minuto a minuto. Eu ainda
estou de pé, e uma certa maresia desembaraça minhas penas antes de dormir.
Visto a noite que faço todos os dias, trançando fantasia com esperança. As
estrelas são apenas consequência. Fecho os olhos e logo o sorriso tímido alastra
minha boca. Você não saiu daqui.
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