segunda-feira, 23 de março de 2015

Guerra.

O último verso de uma poesia é o livro que se fecha. Bem como um sonho ao amanhecer, não passa de mero esquecimento.
Hoje, meus passos vêm a sós. Pés calejados e mãos feridas de um esforço desumano em troca de nada. Não que eu veja o amor como uma guerra, mas me pego vestido para o campo de batalha. Daria um rim por qualquer armadura que me fornecesse um pouco mais de equilíbrio.
Tudo em ti, agora, me afugenta. Traz a raiva e a mágoa. E o amor que tive, agoniza. Como sempre me colocaste, eu ainda estou balançando por entre um vale de incertezas. Tão perdido que nem ao menos saio do canto. Quem me vê imóvel, enxerga a comodidade de uma certeza que ainda não me cabe; mal sabem, estou entre a cruz e a espada. 



domingo, 15 de fevereiro de 2015

Lixo.




                O tempo se esparramou por aquele quarto minúsculo que julguei que seria suficiente. Os momentos se converteram em lembranças e se amontoaram. Dentro de quatro meses, há minutos demais, horas demais, finais de semana demais. E hoje eu estou apavorado. Produzimos o lixo mais lindo e valioso do mundo, contudo, nenhum de nós irá recebê-lo de bom grado caso tudo termine num tribunal. Tu o empurrarás para mim. Porém, francamente eu me deixei poluir. Também não sei por onde começar a faxina, talvez nem queira. Talvez não haja mais o que se fazer. Permaneço, então, entre a cruz e a espada. Entre a beleza e o medo.  Vivo a nós como se tudo fosse uma fábula de papel que logo estará se desintegrando. Eu, como um escritor decadente, acabei prolongando demais o final feliz e o ponto final se perdeu dentre as entrelinhas. Agora tenho medo até de encontra-lo. Não sei o que faria com tudo aquilo que produzimos. Escrever, não mais! Então, me chame um conciliador e que se faça a partilha dos bens. Eu, de certo como vítima, exijo todo o teu desapego e de herança a ti, te deixo todas as lembranças.





sábado, 31 de janeiro de 2015

Sonho.



A alvorada me dá os últimos goles da tua ilusão. A noite se foi e o sonho escorreu pela janela. As melodias me deixam com a sensação do sabor, mas não me alimentam. O Sol vem para queimar minha pele e me despertar para a dor cotidiana. Os passos apertaram e as minhas costas gritam por tua imagem, assustam meus olhos. Meu corpo magro e carente está exausto o dia inteiro, quase implora por cama, sufocado numa mentira dita minuto a minuto. Eu ainda estou de pé, e uma certa maresia desembaraça minhas penas antes de dormir. Visto a noite que faço todos os dias, trançando fantasia com esperança. As estrelas são apenas consequência. Fecho os olhos e logo o sorriso tímido alastra minha boca. Você não saiu daqui.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Barganha.

O amor está à barganha, assim como um produto. Funciona na base da oferta e demanda, bem como o mercado. Há uma síndrome de Narciso coletiva; uma tentativa imatura de valorizar-se perante a animalidade da concorrência. A propaganda é a alma do negócio, claro. Exaltam-se as qualidades, mascaram-se defeitos, numa tentativa de atrair a maior oferta. Contudo, o paradoxo entre oferta e demanda se manifesta no típico pensamento de que sempre se pode conseguir oferta melhor.
A guerra é travada desde o início. Como uma briga de ringue, o objetivo é, unicamente, chegar ao melhor produto. Desde o flerte até o primeiro ‘eu te amo’, aquele primeiro a hastear a bandeira branca é o perdedor. É aquele que correrá atrás e sofrerá de amores. Aquele que buscará atenção. Aquele que genuinamente se importará. Enquanto o outro buscará alguém para um novo duelo. Mais adrenalina. Penso, que, no fundo, todos estão em busca da derrota, do sofrimento e da auto piedade. O que é realmente estranho. Vejo cavarem a própria solidão, mergulhando, após, em relações supérfluas e inúteis, apenas breves distrações à entediante rotina diária. Deixando o amor para depois, perecendo no dia-a-dia, puramente pela ilusão astronômica de que haverá alguém neste mundo a ter exatamente o mesmo valor, e então a batalha cessará.
O amor tornou-se capricho de criança burguesa mimada. A mesma que faz birra quando, numa loja de brinquedos, não lhe dão exatamente aquele que seus olhos enamoraram. Depois da birra, vem a sensação de prêmio conquistado que, não muito tarde, é esquecido no canto do quarto. Uma triste mediocridade, provinda da ignorância sobre si e sobre o mundo. Plantando indiferença e colhendo solidão. Para, então, encher-se de auto piedade e perguntar à exaustão ao universo ‘porque eu?’.
O capitalismo corrompeu até mesmo o mais brilhante dos sentimentos. A generosidade e o sacrifício se perderam em algum lugar na revolução industrial. Os sorrisos genuínos pereceram para as vitrines de corpos. O brilho avivador no olhar dos amantes perdeu o folego. E a vida anda sem graça, mergulhada na fome perpétua de entusiasmo vazio. E está desprovida da sabedoria de que amor se sustenta em terreno rochoso, se constrói aos poucos, pelos momentos que o tempo vai semeando. Contudo, os frutos só podem surgir de um coração que ama verdadeiramente. E a isso, não há barganha, moeda ou jogo de valores que pague.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Pecador.



O medo me corta e me espreita, deixando um rastro de lâminas pelo meu corpo. Eu, moribundo, com febre altíssima, encolho, numa tentativa de conforto. Gravei a poesia do teu corpo no meu. Embebedei minha carne da tua. E o mapa dos teus pelos está incrustado na minha pele. O teu cheiro enlevou minhas narinas e até agora tem me castigado. E a lembrança do nosso gozo unido me furta a paz antes do sono de cada maldita noite. Contudo, de que posso eu, pecador, reclamar?  Catei sarna, minha pele arde. Blasfemei contra a promessa da autossuficiência e cometi sacrilégio contra minha própria carne. Quebrei o juramento de manter minha alma intacta e limpa. Teu suor me suja, delator perfeito. De boca seca e mãos atadas, a fome de ti é a minha penitência pela petulância de amar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Duduzinho.



O hoje tem gosto de saudade
Do dia que nossas mãos se abrigaram
Sob minha escolha à eternidade
Para os amantes que se amparam

Ah, se tu soubeste a falta que faz
E o que eu não pagaria pela paz
De ouvir novamente dos teus lábios, em carinho
Bom dia, meu Duduzinho



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Morte.

O dia hoje acordou com gosto de sangue. Sinto morte iminente. O amor, morrendo aos poucos; pequenas feridas se transformaram num último fio prestes a se partir. A angústia ensopa o tempo de ansiedade. Mal se sabe quando será o último suspiro, o fio ainda está rente. Balançando para lá e para cá, dentre os espinhos que se aglomeraram.
Eu, tão ínfimo e sozinho, me desdobro em mil para não vê-lo desmoronar sobre mim. Questão de sobrevivência. Tento aparar os espinhos que nascem aos montes. Lixar as pontas. De tão imensos que são, por vezes perco o amor de vista. O coração palpita, penso que finalmente acabou. Mas ainda está lá, fino e frágil, balançando sobre seus algozes.
Ainda há esperança, tão fina quanto o que sobrou de um conto-de-fadas. Da escuridão pode surgir a luz, da morte, a vida. O Sol chegaria numa surdina heroica e secariam os ferrões. O céu, então, se alegraria. A tranquilidade me abraçaria num sono suave. E por todas as manhãs da minha curta vida, ofertaria uma medalha ao astro rei.