Tem gota de chuva que nasceu para ser nuvem; assim como um
poema não existe por vinte e quatro horas. Portanto, nunca veja a morte com olhos de terror, veja-a como é: apenas uma porta.
domingo, 26 de outubro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
Retalhos de Uma Depressão.
A depressão tem me feito visitas. Neste texto a seguir, coloquei vários dos versos que ela me inspirou, como a montar uma colcha de retalhos. Vejamos quando tudo (e se) terminar.
A dor dele era escondida, disfarçava bem com seus altos sorrisos e graça. Arrancava gargalhadas do seu meio, dava a paz que não tinha, ansiava o alento que nunca poderia ter. Os passos, acompanhados, eram firmes. Na liberdade da solidão, a postura caía, a cabeça pesava e os pés mais pareciam estar numa ré da qual não queria sair.
Em casa, ao espelho, era menor que um grão de arroz. O
quarto se agigantava cada vez que a porta era fechada. Ao tilintar do giro da
chave, toda a sua falsa força desmoronava, como uma barragem que estoura e
deixa fluir todo o rio furioso atrás dela. Atrás dele havia tristeza. Atrás
dele, havia todas as lágrimas do mundo.
Os olhos, coitado, tinham dois grandes vãos que contornavam
suas olheiras de nascença. Duas valas abertas pelas lágrimas quentes. Tão
quentes, mas tão quentes, que seu rosto era marcado por cicatrizes de terceiro
grau. Sabe, eram feitas de dor. Dor queima, assim como o amor. Amor ele não tinha,
mas tinha as cicatrizes de incontáveis queimaduras.
Até o ar lhe faltava. Ele expirava sua dor como um fumante
que repele seu vício, mas cuja boca tornou-se uma chaminé. Ele via a si mesmo
como um fumante compulsivo por expulsar fumaça. Seu fôlego expelido,
preto-piche, perdendo o pouco de vida que custava a assegurar. Dizem que a dor
é negra; às vezes queima, às vezes é cruelmente indolor. A dor, pois,
apropriou-se de seus pulmões, inebriou sua postura e surrupiou muito do ar que
consumia, deixando apenas a fumaça escura e definhada. Estava morrendo aos
dias, perdendo muito ar e excedendo a dor. Tanto que só podia expelir o excesso
do excesso, e portanto, era a fumaça mais densa que já vira.
Deus, nosso Senhor, tão misericordioso, foi complacente com
sua dor. O tempo fechou-se em cinza e o Sol se escondeu para que não zombasse
da sua angústia. Enquanto seus dias passaram às lágrimas, mascaradas pela porta
sempre fechada do quarto, lá fora passou-se à chuva. Os céus choraram com ele
durante aquela semana de agonia. Seus bramidos de aflição foram sufocados por
trovões e as lágrimas foram condensadas à chuva. Ele sentiu-se acalentado,
sentiu-se parte do mundo.
Após todo o temporal, num impulso instintivo para
aquecer-se, seguiu para onde o Sol se recolhia. O frio não o acompanhou por
algum tempo. Assim, pode ver por uns instantes a sua antiga casa. E o céu, o
mar, o verde, as cores. Mas logo atrás estava o breu a puxar-lhe. Traçou,
então, uma linha com um giz azul. Linha tênue, essa, que separou dois ambientes
tão distintos. Do lado esquerdo, estava o inverno eterno, que o sugava. Do lado
direito, estava a vida, que ele almejava. Em diante, ele tentou andar sobre
aquela linha, pois não queria morrer de frio e sabia que a vida colorida não o
aceitaria totalmente. Preferiu acima do muro. A linha tênue de giz azul gravada
como a dividir dois territórios (e assim o era) tornou-se um caminho que ele
começou a seguir. Porém, era uma corda bamba, na verdade. Ele estava caminhando
entre a morte e a vida. Uma o puxava e a outra o repelia. Esta ele queria, a
outra ele abominava. Numa batalha tão desigual, esticava apenas o braço direito
– se pendesse, que fosse à vida.
Por aquelas bandas, os corredores atravessavam a linha de
chagada pela surpresa. Mal sabiam quando as pernas estancariam, era tudo muito
de repente. E a inércia em que se apresentava o pôr-do-sol tirava-lhe a
determinação. Nada era como antes. As cores eram apenas cores. A poesia o
deixara. Decidiu, então, perpendicularmente à linha de giz azul, traçar com giz
branco sua própria linha de chegada, já que o horizonte não atendeu ao seu
apelo. Traçou-a com tanta força, que teve quase um palmo de espessura. Acima,
gravou com mais força ainda: CHEGADA.
Dessa mesma forma, letras garrafais, enormes. Mesmo que por brincadeira,
resolveu deleitar-se com aquela visão tão consoladora. Deitou-se naquele chão
marcado pelas duas linhas mais simbólicas que já vira, olhou para cima, na
esperança fajuta de encontrar a poesia que o largara naquele breu sem fim.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Cilício / 01
Meus olhos escuros enuviaram o mundo dentro e fora da minha
casa. Assim como o céu, que forrado de cinza, castigou-me com o frio diário e
permanente. A primavera fugiu como uma ave amedrontada, e com ela, toda a
esperança. Meus gritos foram de desespero, mas, ao que parece, meu rosto
molhado e vermelho serviu-me apenas de carranca, nenhuma das duas apareceu mais
por essas bandas, até agora.
Estou eu, sentado no chão da sala, acompanhado apenas de uma
pinga barata. Estou moribundo, febril e ardente, mas só por dentro. Minha alma
grita, e, a cada runido seu, açoita o meu pobre futuro. Um auto boicote; um
assobio tenebroso que me diz a cada instante que eu não tenho chance. Hoje
percebo que a liberdade é um dom de poucos, porque estou aprisionado aos gritos
da minh’alma.
Na verdade, estou a esperar meu destino final: a dor
perpétua. E não, não é uma dor de alma ou algo do tipo. Eu aguardo a dor
física, mesmo. Mas, mesmo sendo física, é tão capaz de modificar o espírito,
pois, de qualquer forma, é dor.
A porta tornou-se uma sentinela. Ela me dirá quando tudo
começar, ao abrir. Enquanto isso, a pinga se mistura às lágrimas que me molham
os lábios. Muitas!
Tremendo de frio, sozinho e num completo breu, eu aguardo
pacientemente o demônio que me trará a encomenda. Não ficarei surpreso, claro. Esta
dor já me foi apresentada em teoria. Francamente, eu a anseio. Sei, de antemão,
que receberei um cilício.
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
Moléstia.
Meu corpo febril – doente de amor – geme as sílabas do teu
nome. Enquanto desfaleço-me em enfermidade amorosa, rogo aos céus por
misericórdia e grito minhas fantasias, numa esperança chula de desfazer-me das
duas. Mas amor, quando é demais, impregna, suja e inebria. Seja alto ou baixo,
seja bom ou não, tudo o que eu sonhei embriagado, eu desejei sóbrio.
Que eu, então, não chore, assim como o chuveiro que me
alivia. Pois o alívio das lágrimas, eu não mereço, já que tu, infeliz, estás
longe há tanto tempo quanto meus dedos não podem contar. Mas mesmo tão
distante, exerces um fascínio singular sobre mim, assim como um boneco de
ventríloquo controlado à distância.
Resta-me, então, aceitar a moléstia do amor. Uma vez
morrendo, talvez a paz me venha. E cessariam os gemidos. E o apelo. E a
embriaguez de ti. E o amor faleceria comigo, num destino trágico. Sendo, pois,
a tragédia um apelo do Romance, eu seria arte, e aí, quem sabe, no anonimato de
um livro vagabundo, arrancaria alguma emoção de ti, caso tivesse a sorte de chegar na tua cabeceira.
domingo, 20 de julho de 2014
Branco-Arrogante
E desceu do céu como um raio
De brancura pálida e nítida pureza
Procurou seus caminhos com dura aspereza
De um rei arrogante que olha de soslaio
De mala branca e cuidado exagerado
Pisava o chão com todo o cuidado
Num mundo de tintas, ele caía
Por sua brancura, agora, temia
Porém, esquecera sua coroa
E a altura na qual se entronava
Vivia a se esquivar das cores à toa
Esse martírio, dele, açoitava
E os dias traduziram-se em máculas
Seu branco, todo traído
Seu ego, real e arrogante, moído
Aborreciam o pobre crápula
Em cada cômodo que entrara
Saíra com marcas por toda parte
Chorou sua cor usurpada
Não conseguia sorrir sua arte
Nem coroa, nem branco
Nem trono, nem rei
Nem ego, nem lei
Nem puro, nem alanco
Manchas e cores
Agora humano
Num colorido arcano
Num viver sem pudores
Estar vivo é uma troca
Não se perde, nem se ganha
A transformação é a façanha
Quando a vida nos toca
Ao término do ciclo
Voltou ao céu como veio
Mais leve, mais belo
Seu rastro foram 7
Um arco-íris
quarta-feira, 9 de julho de 2014
domingo, 29 de junho de 2014
Vem, morno.
Quero que o sol venha doce num fim de tarde
Ilumine o que de vivo estiver debaixo dos panos
E a varanda esteja aberta à brisa fresca que não arde
E que o sentimento seja morno – ainda, com tantos anos.
Quero sentir a segurança da tua pele para meu corpo
E ver o que há de honesto no que carregas no rosto
Desejo, também, que um bom sorriso se realize
Tão como uma árvore que enraíze
Talvez haja até acordes ao fundo
Que inspire e resgate memórias já surradas e mal lembradas
E a cumplicidade se sele às mãos dadas
Nos mostre a completude bela do nosso mundo.
Deixa a preguiça te abraçar, menino
Vem dormir comigo, que o sol já vai
No vai-vem da rede, que balança mas não cai
Dorme tranquilo, que meu amor é genuíno.
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