quinta-feira, 29 de maio de 2014

Eu quero morte!

Que venham as sombras, o frio e o luto.
Que venham as lágrimas que dão forma à dor.
Que venham os soluços que desnudam o sofrimento.
Que venham os dias de garganta apertada.  
Que venham a cola e os curativos.
Que venham os corvos e urubus.
Que também venha o preto da conformação.

Dê-me morte, por favor! Chama-me sádico, louco ou mau, mas dê-me morte.

Deixa-me ver o amor sangrar, gritar e apodrecer. Eu quero morte!
Deixa-me sentir o cheiro do putrefo que sobrar. Eu quero morte!
Deixa-me involucrar das sombras e do frio. Eu quero luto!
Deixa-me ver as lágrimas, elas dizem o que é dor. Eu quero morte!
Deixa-me cansar pelo choro denunciado. Eu quero morte!
Deixa que pousem corvos e urubus.
Deixa que limpem tudo.
Eu quero morte!

Só, por súplica, leva esse “e se” para longe de mim. Amor que respira isso não vive, vegeta.

domingo, 18 de maio de 2014

O Pequeno Guerreiro



Eu nasci guerreiro. Ou melhor, não nasci, mas sou. Isso muda muita coisa. Digo isto porque minha integridade foi respeitada desde muito infante. Sempre fui inteiro, nunca sobrei, nem faltei. Nunca usurpado ou camuflado.
 Lembro-me de minha mãe a costurar minha armadura de pano e papel. Lembro-me da sua magia, ao transferir todo o seu afeto do instinto protetor para o que eu usaria eternamente. Assim pensava ela. Na verdade, penso que ela só quisesse preservar a essência que me cabia inteira, nunca sobrando, nem faltando. Então, me fiz poderoso desde criança. E carreguei aquela armadura como uma dádiva. Fui soberbo, admito. Também fui arrogante e intolerante. Me mantive só. Pois é, ela não previu o meu próprio envenenamento – Aliás, “veneno” é uma palavra forte em demasia, implica morte. Prefiro intoxicação, acho mais adequado.
Porém, o que esteve em seus planos, fracamente, foi a minha preservação. Deu certo – até certo ponto. Mantive-me íntegro à minha essência, nunca usurpada ou camuflada. Mantive-me estranho ao resto dos outros. Mantive-me livre do lixo e da poeira. A tal armadura era forte o suficiente. Qualquer ferimento que, por ventura, aparecesse, era de única responsabilidade minha. Ou seja, minha pele estava intacta. E, apesar de usar aquela coisa que me prendia e me isolava da experiência da vida, eu estava livre. Nunca duvidei de que sua maior preservação fora minha liberdade. Mas isso custou-lhe muito. Houve pedras e injúrias quanto ao seu amor por sua cria. Contudo, ela nunca esquecia de abrir a porta pouco antes do amanhecer. E assim, contemplava-me a gozar de minha existência com paixão e alegria. Via-lhe o sorriso no rosto e isso bastava, tanto para mim, quanto para ela. Mas eu cresci. De repente.
Tenho que dar-lhe a notícia. A aflição que me toma em abraço já não consigo conter. Não quero ver-lhe o choro no rosto, nem a decepção. Mas o mundo foi mais forte. Aliás, o mundo detém toda a força que existe. E ela é apenas uma mulher. O mundo guerreou contra nós dois de forma injusta. Combateu fogo com muito mais fogo. Com amor ela me vedou. E com amor eu me desfiz. Pura covardia. O mundo não respeitou minha integridade. Ninguém, na verdade. Apenas ela.
Talvez o tecido fosse fraco demais, ou o papel estivesse muito envelhecido. O que posso afirmar é que a armadura não sobreviveu à queda. O mundo é perspicaz demais, tudo aconteceu de dentro para fora. O amor brotou, como uma coleira que me açoitava. O desrespeito iniciou-se a partir deste maldita coleira. Não tive como fugir, e ela há de me perdoar. Bolei muitas estratégias, mas todas muito falhas. O mundo é um cavaleiro impiedoso. Acabei que fui acuado e colocado sem saída. O orgulho, então, falou mais alto. É para ferir? Antes eu que o amor! Pulei. Não me perdoaria caso sentisse aquela mão tenebrosa me empurrar. Porém, a armadura não suportou o baque.
Hoje eu sinto frio. Sei o que é a sujeira. Hoje eu apresento cicatrizes por entre as migalhas que carrego no corpo do que já foi, um dia, a prova da minha divindade. Hoje eu sou tratado com gargalhadas por onde passo. Sim, porque, ainda insisto em carregar os fragmentos do maior presente que já tive. Hoje eu preciso me modificar e me dobrar ao mundo. Hoje penso que este mundo só pode ser mais bonito visto lá de cima, essa é a única explicação para que eu caminhe aqui. Hoje eu só não sei como abraçá-la para pedir todo o perdão que não mereço.

sábado, 5 de abril de 2014

A dor se acumula, e, com o tempo, torna-se menos-valida. Uma lágrima, depois dos vinte, é mais cara.

Castin, do Cristal Quebrado (A Sociedade dos Falsos Sátiros)

Havia um lugar, perdido em algum mundo, em algum ponto do espaço-tempo, que existia uma sociedade inteira de seres primitivamente evoluídos. Essa sociedade estava afundada numa enorme cratera cavada pelos ancestrais de seus ancestrais. Sua cultura era demasiadamente estagnada; desde eras primordiais que os costumes estavam petrificados numa mesmice passada a cada nova geração.
Numa habitação simples, na periferia daquela cratera imensa, um clã festejava o nascimento de sua cria. Mais um membro chegara ao mundo, e para a alegria dos presentes, seria um detentor de cristal. Havia um costume naquele lugar que certos nascidos eram presenteados com cristais, que o sortudo indivíduo carregaria pelo tempo que tivesse em vida. Toda aquela sociedade estava estruturalmente moldada numa pirâmide, em cujo topo estavam esses seres de grande dádiva. O bastão de cristal era o símbolo máximo de status dominante em toda a cratera.
Castin nascera cercado de muitos mimos. Seu cristal fora colocado acima de onde dormia, para que fosse visto por todos, adorado e idolatrado como um símbolo divino. Elogios eram feitos à pequena cria, tão especial, desde cedo, para que entendesse seu valor perante a comunidade.  Toda a família estava incumbida de ensinar cuidadosamente ao pequeno Castin a simbologia daquela haste mineral que ele perpetuamente carregaria. Trataram de mostrar-lhe o poder emanado daquele pedaço de pedra rusticamente talhado e moldado. Que ter aquela pedra significava obediência às leis que a cercava; muita responsabilidade, sem dúvida. Todos os mandamentos estavam fundamentados em tempos imemoriais que as eras carregaram até ele. Que a maior desonra para um detentor de cristal era perdê-lo e assim trazer a desgraça para ele próprio e todo o seu clã. O cristal teria que sobreviver com ele, intacto, entranhado na sua história e norteando todas as suas ações. Aquele cristal teria de ser defendido com a própria vida, caso preciso fosse.
                Castin cresceu aprendendo a conviver com o cristal. Seus familiares forjaram, conforme seu desenvolvimento, todo o costume necessário para que nenhum esforço fosse perdido e acabassem zombados perante toda a comunidade. Certo dia, Castin estava a brincar nas terras de sua família, sob a vigilância dos anciãos. Descuidou-se poucos segundos do cristal e este foi lançado ao chão. A palmada foi instantânea, para que aprendesse a nunca se descuidar; caso essa queda acontecesse dali a um tempo, certamente o cristal seria fraturado e tudo estaria perdido. Castin entendeu a bronca.
                Ao passo que evoluía, Castin adquiria a noção do quão poderoso era perante os habitantes daquele lugar. O poder tramitava do cristal para ele e foi, gradativamente, mudando seu comportamento na medida que entendia que para o cristal, não havia limites. Passou a subjugar os seus iguais que não tinham nascido com a dádiva daquele objeto fantástico. As humilhações constantes, até mesmo para com alguns membros de seu clã, eram afagadas e até comemoradas pelos seus criadores. Afinal, ele era um detentor de cristal, e todos precisavam estar completamente a par disto, já que aquela sociedade estava estruturalmente construída desta maneira. Castin aprendia o que teria que seguir para nunca perder todo aquele poder. Era isso ou a escuridão da leviandade.
                Castin catava lenha com seus parentes, quando, de repente, um bando de gente esquisita atravessou aquelas bandas da periferia. Os anciãos logo o chamaram e ele e seus irmãos obedeceram, mas Castin escondeu-se e ficou a observar aquela gente estranha de que todos tinham medo. Percebeu que muitos tacavam pedras, insultavam aquelas pessoas que ele não compreendia. Castin ficou surpreendido e amedrontado com todo aquele comportamento de ódio. Assustou-se com uma mão a tocar-lhe o ombro enquanto estava distraído com toda aquela algazarra, os anciãos o levaram para dentro da casa. Os mais velhos lhe disseram que aquela gente eram levianos, pessoas que um dia detiveram cristais e os negligenciaram, que trouxeram desonra e a vergonha para todo o clã, que foram banidos para as colinas da escuridão. Aquelas pessoas eram impuras, ouvia Castin dos anciãos, e não mereciam viver onde os olhos conseguiam ver. Os anciãos alertaram-no para que nunca chegasse perto, pois aqueles seres repugnantes gostavam de quebrar cristais, ou até mesmo, a comunidade poderia fazer maus julgamentos e seu cristal, mesmo intacto, seria jogado à lama. Castin ouviu tudo pacientemente e absorveu o que aquela mensagem queria dizer. Aquelas pessoas mereciam o que lhes acontecera momentos atrás. Eram demônios.
                As colinas da escuridão era o lugar para onde todos os levianos eram banidos. Das suas terras, Castin observava o sol sendo engolido por aquelas montanhas tenebrosas de que ninguém falava amistosamente e sempre ficava apavorado com todas as possibilidades do que pudesse haver por aquelas bandas. De certo, ir parar naquele lugar seria terrível. Tão terrível que era o pesadelo recorrente de Castin. Muitas foram as vezes que acordara assustado de um pesadelo intenso, em que sua família o banira para a desgraça. Via-se sozinho, no mais completo escuro, tendo que lidar com as mais bizarras criaturas dando-lhe sorrisos de boas-vindas. Para aquele inferno, ele não iria. Preferia a morte.
                Castin era um membro obediente do clã, sempre estava à disposição dos anciãos para ajudá-los. Numa certa manhã, Castin foi com os mais velhos ao mercado que ficava ao centro da cratera. Todos estavam escolhendo os melhores alimentos, enquanto Castin conversava com um dos vendedores. Perguntou-lhe sobre muitas coisas e a prosa se estendeu. A companhia daquele vendedor era agradável. Ao levantar uma pequena bolsa de condimentos para pagar ao vendedor, alguém se aproxima dos dois e passa a apontar para eles. Era uma acusação, e Castin não entendia o que estava acontecendo. Os anciãos logo chegaram e presenciaram a cena, que, por sorte, era o vendedor o acusado. Acusaram-no de leviandade e que seu cristal tinha se partido por ficar admirando o cristal de outrem, o que era expressamente proibido. O vendedor ria, tentando disfarçar o nervosismo e usar de sarcasmo para desviar as acusações. O pobre homem gritava que não era um leviano e podia provar, mas relutou em mostrar seu cristal. Os presentes, então, usaram da força para arrancar-lhe e, então, viram que o objeto estava totalmente perdido. O farelo de cristal foi jogado ao chão, ali mesmo, na frente de todos. Uma vergonha!
                A vida daquele homem estava perdida, mas ninguém teve o mínimo de compaixão. Castin não entendia como aquele ordinário poderia ter a petulância de estragar o próprio cristal. Deixar que aquele objeto de grande poder se perdesse daquela maneira. Esquecer de tudo o que foi ensinado desde as eras primordiais para ser jogado ao ostracismo. Castin estava incrédulo; como aquele vendedor tão gentil pudesse ter tamanha leviandade? Castin o conhecera, mas logo pensou que, certamente, aquele homem queria quebrar o seu cristal também. Castin tomou-se de ódio, estendeu a mão ao chão e foi o primeiro a tacar-lhe a pedra. Foi ovacionado. A criança já compreendia.
                O tempo foi se acomodando e a vida de Castin foi se modificando, e conforme os muitos rituais daquela sociedade, ele crescia. Absorvia os ensinamentos como uma planta que se nutre do seu entorno para, num futuro próximo, dar suas flores. Castin aguardava ansiosamente cada novo passo, cada nova porta que se abriria para ele, pelo simples fato de ser dono de uma dádiva. A estrada era fácil, bastava ir sempre em frente, não fosse a distração com a paisagem que o fazia tropeçar vez ou outra. A verdade verdadeira era uma só: Castin crescia com uma erva daninha que ele não conseguia enxergar. Castin era curioso por natureza, mesmo com sua curiosidade sendo acochada pelos arreios daquele lugar.  Castin estava desafiando um desfiladeiro de espinhos ao permitir certos pensamentos e certos desejos. Naquela sociedade, tudo estava comedidamente equilibrado de uma forma que nada além do necessário seria tolerado, e disso Castin sabia bem.
Castin estava distante. O olhar fixo no céu que adentrava o lugar pela pequena janela que ficou a noite inteira aberta. Nem o vento moribundo que circulava pela mesma janela era capaz de abrandar-lhe a cabeça. Castin fitava a janela com veemência, parecia ser uma forma de fuga, quando, num horizonte próximo – a moradia vizinha – avistou o vizinho que limpava o cristal. A fuga de Castin foi catapultada para aquela imagem. Ouviu algo cair, mas sua distração não permitiu que desse muita atenção para superfluidades, apenas continuou a observar aquela cena e só se esvaiu dela quando o outro terminou seu afazer. Era a hora de voltar à rotina, mas nada seria como antes dali em diante.
Castin pisou em algo que o machucara. Constatou, ao olhar para o chão, que eram cacos de alguma coisa. O desastrado quebrara algo, mas não sabia o que era. Dirigiu-se à porta para ordenar que alguém limpasse toda aquela sujeira, quando parou veementemente. As mãos começaram uma busca frenética pelo corpo, depois os olhos pelos cantos do lugar e em seguida, taquicardia. Era seu cristal. Castin voltou-se para os fragmentos da sua vida que estavam espalhados pelo chão do quarto. Sua respiração ofegante e as batidas desesperadas em seu peito impedia-o de raciocinar. Tentou, inutilmente, recolocar todas as peças no lugar, enquanto suas lágrimas lavavam cada pecinha do seu destino. Tudo estava perdido.
 Desde que entendeu profundamente todos os mandamentos a cerca de sua vida como um dominante, Castin sabia de seu destino, mas agora o jogo tinha mudado a favor de sua desgraça. Castin recusou-se a sair do seu recinto por muito tempo, o que causou a preocupação de seu clã, que pensava que ele estava enfermo. Lá dentro, até a luz que vinha do dia ofendia-lhe a honra, parecia que tudo zombava de seu triste destino. Castin passou de uma alegria vigente a uma melancolia profunda, tanto que os pesadelos, antes esporádicos, agora eram constantes. Sentia sua vida esvair-se e passou a tentativa angustiante de encontrar uma maneira de ter sua garantia de vida de novo. Aos poucos, saiu do quarto, sempre escondendo o cristal como nunca fizera antes. Deu-se conta que ninguém perceberia, a única coisa que tinha que fazer era se prevenir para não ser alvo de acusação, e assim, ninguém nunca adivinharia que seu orgulho não mais existia.
Com o decorrer das estações, Castin adquiriu mais confiança para viver com o pouco de tranquilidade que conseguia, mas estava diferente. Desde aquela noite que passara acordado, todos vinham percebendo a mudança de Castin, seu comportamento transformou-se. Agora até adquiriu o hábito da gentileza para com os outros. Porém, o medo ainda espreitava-lhe o coração, como um aviso para que não desse nenhum passo em falso, caso contrário, seria levado ao ostracismo.
Castin deu-se a prerrogativa de sair para encontrar-se com um meio social morava pela vizinhança. Agora mais adulto, tinha que começar com seus relacionamentos. Deu-se muito bem com aqueles que, certamente, também detinham cristais, essa era uma das regras. Aqueles amigos passaram a encontrar-se cada vez mais e Castin desenvolveu, então, suas conexões com outros clãs. O senso social de Castin estava se apurando, inclusive, com a proximidade com outro membro daquele bando. Castin e seu amigo desenvolveram uma conexão de clã, como se ambos tivessem origem nos mesmos criadores.
O hábito á habitação do amigo passou a ser rotina para Castin. Certo dia, caminhando para a casa do amigo, Castin depara-se com seu amigo jogado ao chão. Ao se apressar para ajuda-lo, depara-se com uma acusação. A pobre criatura estava chorando e recusava-se a mostrar o cristal. Castin já havia visto aquela cena antes, com o vendedor da feira. Tomado de ira, vai até o amigo que, ao vê-lo, não oferece resistência. Castin abre a cabaça e olha de rabo de olho para o que está lá dentro. Sua raiva se expande para os braços, caminha lentamente ao redor do seu amigo que olha para o chão, derrotado. Questionado pelos demais presentes sobre o conteúdo da cabaça, Castin desce a mão ao solo, pega uma pedra e arremessa na direção ao amigo, deixando cair os cascalhos de cristal logo em seguida. Tamanha força que usou, que o rosto daquele que foi seu amigo banhou-se de sangue. O, agora, leviano atreveu-se a olhar para os olhos de seu algoz. Castin viu um misto de incredulidade  e raiva lavado com o sangue daquele leviano. Castin deu às costas àquela cena deplorável e caminhou de volta à sua moradia, parando veementemente no meio do caminho; deu-se conta, dolorosamente, que a pedra não atingiu seu amigo, e sim, ele mesmo.
A consciência de Castin passou de poucas preocupações sobre cautela no dia-a-dia para uma tonelada depois do ostracismo daquele que conhecia. Ele era seu amigo, deveria tê-lo ajudado. Mas não apenas isso, ainda existia o fato de seu mastro estar no mesmo estado que o do leviano. Então, o que fez com que atirasse aquela pedra em seu amigo? Medo. Sim. Medo de estar naquela mesma condição um dia; seria mais fácil atingi-lo a se igualar a ele.  Medo de também receber uma acusação ali naquele lugar. Castin não estava preparado; na verdade, nunca estaria. Mas o destino nem sempre está curvado às vontades.
Os ciclos do sol foram se sucedendo e Castin destoava cada vez mais de seus iguais. A cada momento de reflexão que passava, seu comportamento se transmutava de uma forma desconhecida até para ele mesmo. Ao passo que compreendia cada vez mais a realidade à sua volta, Castin obtinha um senso generalizado sobre toda a cultura em que estava inserido. A começar pelo seu próprio dilema: ele nunca deixou de ser ele mesmo após o cristal ser fraturado. Nada mudara desde então, e ninguém havia percebido nada. Então, o que aquele simples objeto significaria verdadeiramente para sua essência? Porque seu destino teria que estar atrelado àquilo?
Castin não percebia, mas estava adentrando num terreno perigoso. As dúvidas e os questionamentos passaram de situações esporádicas de momentos de angústia para a corriqueiredade da rotina. E isso era pecado, ele estava se afundando em pecado. Certa vez, numa volta pela cratera, ficou a observar tudo o que se passava a sua volta e cada vez mais as coisas pareciam distantes de um senso lógico, pelo menos para ele. Havia pessoas sofrendo perante aquela pedra, havia humilhação da dignidade de existência dos seres que não detinham a sorte de possuir esses tais cristais; havia morte, havia destruição. De onde viria realmente o tamanho poder daquelas pedras tão frágeis, que nem sequer aguentavam uma queda? A resposta estava perdida num lugar que Castin não conseguia enxergar, o que acabava o deteriorando cada vez mais rápido.
Todo o clã já se preocupava com a metamorfose de Castin, que estava mais solícito, mais gentil e amável. Seus traços dominadores adquiridos com o forjar de seu crescimento foi dando lugar a atitudes mais contidas e compreensivas. O clã já o olhava com estranheza, mas Castin não parecia se importar muito. Passava mais tempo em seu ressinto, as lorotas ditas pelos membros de sua família lhe perturbavam a mente. Aliás, todo aquele lugar lhe perturbava. As coisas eram desconexas demais, a ponto de Castin achar que sua consciência estava se deteriorando. O mundo não era mais o mesmo. Ou seria que Castin que não era? Castin tornou-se alheio em seu próprio mundo. Sem saber, estava se entregando ao seu próprio caminho.
Castin lutou dali em diante para que tudo à sua volta continuasse como sempre foi, na verdade, guerreava contra si mesmo. Porém, sua atitude solícita continuou para com os membros de seu clã, mesmo que somente como mera figura de ajuda, sem uma maior interação. Preferiu a solidão de seus pensamentos desformes àquele convívio diário. Contudo, nenhuma mudança passou despercebida, ainda com todos os esforços de Castin. Certo fim de tarde, todos estavam em volta da grande árvore que estava assentada na frente da aldeia. Os mais novos estavam entretidos enquanto os anciãos conversavam. Castin sentou-se numa das raízes grossas que se protuberavam do solo e ficou a observar o céu que estava acima de sua cabeça. Os mais novos corriam pelo arredor da aldeia enquanto Castin se distraía em seus pensamentos. Foi chamado várias vezes para o convívio do seu clã, mas preferiu conversar com o infinito acima de si. Por um deslize, um dos novos que estava a correr caiu em cima de Castin, queria brincar, mas Castin não estava para aquilo. Mas aquele peralta foi insistente, tanto que agarrou-se a cabaça de Castin e pôs-se a correr.  Uma brincadeira inocente, claro, mas que poderia custar a vida de Castin. O pânico mexeu as pernas de Castin, que corria como um animal a abater sua presa. Algo em seu íntimo dizia que aquele era seu fim, bastava apenas uma contagem regressiva. As lágrimas se esvaíam enquanto Castin via a criança abrir a cabaça enquanto corria. O pó de cristal foi despejado no chão, bem em frente a todos do clã. O pânico não mais o controlava, ele, então, caiu. Apenas a derrota pesava sobre seu corpo.
A acusação veio de seu próprio clã. Instantaneamente os dedos foram postos em direção a Castin, que com muito custo conseguiu manter-se de pé. Ainda chorando, proferiu palavras que eram a prova de sua leviandade, o que todos os levianos diziam. Tentou argumentar que ele continuava o mesmo, que ainda tinha conexões com todos de seu clã, que o amor nunca quebrara. Seu alento foram as pedras, sua resposta foi o banimento.
Abatido, ferido, rejeitado e desnorteado, Castin tomou único caminho para os levianos: as colinas da escuridão. Em sua cabeça, mesmo metamorfoseada pelos últimos tempos, Castin não poderia aceitar aquele destino. Não ele, que sempre foi benquisto, sempre esteve em um patamar acima de todos daquela cratera. Logo ele que sempre baniu. Até mesmo sua família o odiava agora. O amor nada valia, então. Apenas o cristal tinha o verdadeiro valor de tudo, e seu poder de equilíbrio na vida de Castin tinha se partido. Castin, na verdade, não existia mais. Aquelas pedras o mataram. Faltava apenas o corpo desfalecer. Preferiu, então, entregar-se ao único abraço que lhe ofereceria um afago minimamente aceitável diante de sua situação: a morte. Ao por os olhos em volta de onde se encontrava, percebeu um lugar morto, árido e cinza, cheio de árvores petrificadas com corpos balançando pelos pescoços em seus galhos. Se aquela era a estrada para as terras do banimento, nem queria saber o que existia nas colinas, pensou Castin.
Preferiu não adiar mais, procurou um bom laço dentre os corpos que balançavam. Ao passar por um deles, assustou-se ao constatar que era seu amigo, o mesmo que ele apedrejara tempos atrás. Então, a completude de sua desgraça chegou com a culpa. A morte não seria um afago, e sim um destino, ele realmente era um miserável. Mas antes, enterrou com um mínimo de dignidade o corpo do amigo que jazia pendulado diante às cinzas do lugar, uma imagem mórbida de seu erro. Era sua forma de redenção. E com o mesmo laço do amigo, enlaçou o próprio pescoço.
Porém, uma pergunta atrapalhou sua contagem até a morte. Alguém estava diante dele, questionando-o sobre o que estaria fazendo naquele galho de árvore tão alto. Castin abriu os olhos, mas preferiu não responder àquele que o atrapalhava. Novamente foi questionado, dessa vez com perguntas absurdas, como quanto valia uma vida, ou o que era o amor, ou ainda, para onde iriam as consciências depois da morte. Castin ficou aborrecido com aquela criatura inconveniente que, certamente, era um leviano – pode perceber pelo jeito como se portava. A abominação ainda o causava repulsa àquele que tentava de alguma forma um contato com Castin. Mesmo agora estando no mesmo patamar que aquele ser estranho, Castin sentia-se enojado de sua presença, preferiu ignorá-lo e procurar outro lugar para cumprir sua sina.
Contudo, seus passos foram perseguidos pelo tal leviano. Ele reclamava, de longe, a corda que Castin carregava nas costas, dizia querer devolve-la ao dono. Dizia que aquela corda não pertencia a Castin e não era de bom agouro roubar pertences dos mortos. As palavras daquele imundo irritante se espalhava pela estrada, e Castin se aborrecia. Castin sentia-se invadido por aquela presença pertinaz. Como conseguiria cumprir sua pena com aquela alma cheia de ladainha perseguindo-o? Nenhuma palavra saiu de Castin em resposta a qualquer questionamento insano ou comentário parvo. Sorrateiramente, foi questionado do porque enterrou o legítimo dono da corda que carregava. Os passos de Castin continuaram. Tão logo veio outra, que sentimento o fez tomar aquele gesto. Castin não esboçou nada. Ainda rente, instigou a inércia de Castin ao apontar suas cicatrizes e perguntar se a dor teria sido a mesma que o cadáver sentiu. Castin estancou. O leviano, então, apresentou-se. Disse seu nome em alto e bom som, pausadamente: HERMAFE.
Hermafe, o leviano, aflorou o sentimento de culpa que estava retido apenas na redenção de Castin. Culpa não só pela morte do amigo, mas pelas próprias cicatrizes que acusavam a razão por estar naquele lugar. Castin, agora, de nada valia, e ele bem sabia. Foi estúpido ao descurar o cristal e com isso negligenciou a própria existência. Castin tinha tudo e perdera muito mais. As leis que cercavam sua vida não mais existiam, sua essência se esvaiu e a fome do alívio final doeu em seu espírito. Castin deu-se a prerrogativa da redenção de um erro, mas não podia conceber o perdão a si mesmo.
Encontrou, enfim, uma árvore alta o suficiente. Seca e petrificada, não destoava em nada da paisagem; tão morta quanto o entorno, tão morta quanto Castin. Hermafe seguiu-o. Pouco antes do salto fatal, questionou-o se poderia fazer uma última pergunta. O silêncio de Castin foi conivente. Hermafe, então, o fez olhar um pouco para trás e mostrou-lhe de onde Castin viera. A cratera não estava tão longe assim daquele lugar. Perguntou se, ao menos, Castin sabia a história do lugar tão amado. A expressão de curiosidade no rosto de Castin fez Hermafe prosar uma lenda antiga, que falava dos ancestrais. Sem muito sentido, afinal. Eram outros tempos. Hermafe pediu, então, uma noite. Disse que antes de morrer, ele lhe concederia um último passeio pelos arredores da cratera.
A surdina da noite os ajudou a andar despercebidos. Enquanto caminhavam, Hermafe observou o quanto o cheiro era diferente do lugar em que encontrou Castin. Aquele lugar era uma necrópole, mas a cratera fedia a enxofre. A necrópole exalava o cheiro daqueles que procuraram o próprio destino, disse Hermafe, diferente do odor da ignorância.  Castin não compreendia as palavras de Hermafe, porém, sentia que havia algo a descobrir antes de seguir em frente. O passeio continuou até antes da luz retornar. Hermafe mostrou a Castin que aquela cratera de nada servia, apenas sufocava os indivíduos num espaço ínfimo e fétido, obrigando-os a uma vida estreita. Apontou, após, para o céu e mostrou-lhe que a existência requer espaço que só pode ser concebido pela liberdade – o que, definitivamente, não existia naquele buraco putrefo. Hermafe bradou que aquele lugar abrigava a sociedade dos falsos sátiros, e depois riu, em tom de deboche. Os sentidos das palavras de Hermafe chegavam aos poucos a Castin, mesmo que incompletos. As palavras pareciam se enlaçar com o que a curiosidade inocente de outrora lhe permitiu perceber. E essa dúvida foi a garantia de continuar vivo. Castin aceitou a ajuda de Hermafe para desvendar a verdade, pelo menos até estar ciente de tudo.
O tempo seguiu seu curso, e Hermafe cuidou de Castin durante todo o tempo. Toda manhã, descia ao vale da morte para alimentar e fazer companhia a Castin. Certo dia, Hermafe chegou ao vale com uma bolsa pendurada no pescoço. Hermafe, então, mostrou a Castin uma réplica dos idolatrados cristais. Disse-lhe que poderia voltar ao clã com uma simples desculpa de que o cristal partido não era o de Castin, realmente. Disse-lhe que tudo voltaria a ser como antes, bastava Castin tomar o cristal para si e ir embora. Comovido com aquele gesto, Castin estendeu a mão para pegar o tesouro que Hermafe lhe concedia. Por um momento, a felicidade voltara, antes de se dissipar como fumaça. Hermafe deixou a haste de cristal cair. A ira tomou Castin instantaneamente, que instintivamente, pulou em cima do leviano almejando degolá-lo, tamanha insolência daquele imundo. Com um sorriso sarcástico, Hermafe mostrou uma infinidade de réplicas de cristais. Castin hesitou.  Aos risos, Hermafe tentou clarear as ideias de Castin, mostrar-lhe que nada voltaria a ser como antes, pelo simples fato de Castin ter se transfigurado em outra pessoa. E que, indiscutivelmente, aquele cristal não representava mais nada, Castin já seguia seu próprio caminho. Mais uma vez, Hermafe convidou o amigo para uma volta.
Atravessaram, então, o vale até encontrar uma rocha alta o suficiente para os objetivos de Hermafe. Daquele lugar, tinham uma visão geral de toda a cratera e, por coincidência, Castin já sentia o cheiro ruim do buraco que deixara para trás. Hermafe aponta para uma habitação próxima, onde havia uma festa; mais um detentor de cristal viera ao mundo. Espontaneamente, Castin sorriu, talvez pelas lembranças da vida que teve um dia. Hermafe, então, questiona-o se conseguia diferenciar aquela nova cria dele mesmo. Pergunta curiosa, pensou Castin, mas ao encontrar a resposta, esta foi não. Não havia diferença, Castin havia passado por tudo aquilo. Um pouco mais a frente, um dominante castigava um desobediente que não detinha cristal de maneira feroz. Hermafe questionou-o com a mesma pergunta, e a resposta também foi não. Castin também exercia seu papel dominante naqueles que não tiveram a dádiva. Não tão longe dali, um leviano sofria as consequências do banimento. Hermafe observou que o tal leviano só queria um pouco de comida, que nenhum mal estava a fazer para qualquer um que estava ao redor. Novamente a mesma questão, e Castin, dolorosamente, respondeu ‘não’.
Ao continuar a analisar as coisas junto a Castin, Hermafe deu-lhe novas respostas. Curiosamente, Hermafe explanou que não questionou-o sobre o Castin de antes, e sim, o Castin de agora. O Castin de agora, o mesmo que exibia cicatrizes de seu banimento, não se parecia com aquela cria, porque agora, seu destino seria unicamente de responsabilidade dele. Nem ao menos se parecia com aquele dominador, porque suas atitudes foram transformadas pela dor e pela sabedoria que adquirira com sua desgraça, antes mesmo de tudo se concretizar. Contudo, um dia encontrará a força para enfrentar novamente as pedras que chegarão ao ter que pisar novamente naquela cratera, assim como aquele leviano que vira momentos antes. Apesar da verdade descrita, Hermafe sentia que Castin ainda relutava em aceitar seu destino, que estava à espera.
Houve um dia que Hermafe não desceu ao vale da morte para amparar Castin. O céu tinha amanhecido diferente. Castin aguardou a vinda do amigo por um momento, porém, este não veio. Castin subiu a rocha que assentou as ideias de Hermafe tempos antes, as mesmas que o fizeram refletir durante dias e noites. Do alto da rocha era possível vislumbrar todo aquele buraco fétido a que um dia pertencera. Castin percebeu que tudo na cratera estava estagnado numa mesmice que, agora, podia enxergar claramente. Ninguém era dono do seu destino. Desde o nascimento ao túmulo, a liberdade era usurpada em nome de um organismo maior: a cultura arcaica e estúpida dos cristais. Tudo estava subjugado à maldita pedra que nenhum poder possuía, apenas restringia a consciência a um estado de servidão perpétua, tanto para os abençoados quanto para o resto. E que a liberdade custara caro não só para ele; a liberdade estava entrevada à mão da morte e à destruição e à infelicidade. O pesar foi dando lugar à confiança. Perdido no devaneio de filosofar sobre sua antiga condição, Castin percebeu que Hermafe deixara cair um cristal de sua bolsa e que lá estava, esquecido, próximo à rocha. Era interessante a Castin como todo o significado daquela pedra mudara. A risada abafada pela dor foi espontânea. Pegou o cristal e deixou cair, de propósito, para saciar sua vontade por liberdade. Aquele cristal era tão frágil que não aguentou sequer uma única pancada. Castin ficou a olhar todas aquelas pedrinhas brilhantes no chão, que a luz do dia as transformavam em pequenas estrelas. Recolheu o quanto pode e atrelou os cascalhos ao próprio corpo. A dor foi transfigurada em beleza; suas cicatrizes, agora, brilhavam.
O dia encheu-se de beleza pelo brilho vindo de Castin. Ele mesmo estava entretido com o estandarte em que se transformara. Parecia um prêmio, e a luz do dia o brindou. Brindou a dor de seu passado e as possibilidades de seu futuro, unicamente seu, a partir daquele instante. Castin seguiu a luz do dia para que não perdesse a festa em que o próprio corpo havia se transformado. A cada raio de luz que se escondia, Castin dava um passo à frente para que pudesse aproveitar a beleza daquele dia, até que seus pés não aguentassem acompanhar a luz. Castin deixou-se hipnotizar pela beleza que emanava, seguiu aonde ela o levou, sua inocência estampada no sorriso permitiu que seus passos o levassem até o topo daquela montanha. Mal acreditou quando deu-se conta. A luz o levara para o leito onde dormia: as colinas da escuridão. Havia paradoxo naquele lugar. Como poderia um lugar de trevas ser o berço da luz? A luz seria, então, as trevas? Nada ali era conforme lhe fora contado.
Hermafe deu-lhe as boas-vindas com um sorriso amistoso e cordial, nada da bestialidade antes sonhada em pesadelos terríveis. Apresentou a Castin o lugar, que respirava liberdade. Havia muitos caminhos, incertos pela natureza de quem os fizeram. Havia todo o tipo de pessoas, com os mais diferentes costumes. Estranhamente, percebeu que a leviandade se atrelava aos que nunca detiveram cristais, apenas deram de ombros as verdades impostas pela cratera. Aquelas terras eram férteis, tão férteis que havia uma infinidade de árvores que davam frutos, tão singulares e únicos. Os pés de Castin sentiram aquele chão, o que o fez sentir-se diferente. Eram as raízes, o desejo de, também, frutear.

Muito após sua chegada, Castin desceu com Hermafe à cratera em busca de comida. Houve retaliações à presença deles. Castin foi hostilizado por muitos, alguns deles, membros de seu antigo clã –  conseguiu identificar. A ira daqueles que não compreendiam a beleza do corpo de Castin, que o tinha como heresia, materializaram-se nas pedras. Foram perseguidos até o vale da morte, tornaram-se alvo de pedradas novamente. De repente, Castin estanca e Hermafe pede para que não pare. Castin tentou, contudo, as lágrimas foram mais fortes. Incrédulo, Hermafe viu Castin encarar aquela multidão e dirigir-se até a mesma rocha que um dia estiveram. Castin, então,  em meio às pedras que lhe eram jogadas, respondeu: “E me colocaram à margem...”. E sentando-se na rocha, continuou: “É aqui mesmo que eu quero ficar!”.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Penhasco.

E eu finalmente compreendi a coragem. Eu fugi muito, todo mundo sabe. O medo foi mais forte. Mas eu quero ser franco, então, sendo franco: não podemos fugir de nós mesmos. O travesseiro nos acusa; o espelho nos acusa; os olhos dos outros nos acusam. É um tribunal permanente. Eu estava a um passo de enlouquecer – seria mais uma vítima do amor – então eu tive que decidir. Contudo, analisando bem, paguei do mesmo jeito. Não com o juízo, mas com o corpo inteiro. Eu tô todo quebrado. Traumatismo craniano e vários hematomas. E sabe lá Deus quantas feridas para cicatrizar. Hoje, só o choro é contido, porque a dor permanece. E só ela é o troféu que posso exibir pelo meu ato de coragem. Eu poderia até ganhar uma medalha por isso, porque meu orgulho tá à merda. Mas não competi com ninguém além de mim mesmo, então, prêmio pra quê? Eu saí perdendo. E olha que isso só me custou um passo, tecnicamente. Na verdade, olhando esse penhasco inteiro daqui de baixo, um passo é tanta coisa. Se eu pudesse batizar esse penhasco, não o chamaria de Coragem, e sim de Verdade. O penhasco Verdade. A verdade que eu tive foi o amor. Ele, e unicamente ele, é o culpado de homicídio. Mas amor não mata, cura, é o que dizem.  O que posso dizer é que morri de amar. Olho para o tamanho da queda e vejo que morri mesmo, só falta o atestado. Mas eu vou confessar: o corpo que jaz nestas pedras é de um suicida. “Amor, por favor, retire-se... Não, não! Volte aqui! Você ainda tem culpa no cartório!”. Eu não quero ser julgado por isso, apenas pelo meu ato de coragem. Eu admiti a verdade. Eu admiti que amo. E admitir a verdade de amar é a coragem de se estar vivo. Mas eu, agora, estou morto. Não sei se foi pecado ou burrice. Tanto faz, mereço o inferno do mesmo jeito, não passo nem pelo purgatório. Eu entreguei o que de mais lindo já cultivei e cuidei. Entreguei e previ no lixo, logo em seguida. Então, antes que sentisse a tua mão me empurrar, preferi, eu mesmo, dar um passo pra trás.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Hipotermia.

Se imagino o amor, vejo o frio.
Ora, o que é o amor senão desnudar-se para, então, morrer de frio?
A criança recém-saída do ventre busca veementemente abrigar-se do frio, mas o frio é sua sina perpétua.
Portanto, o amor é a sentença de troca, uma esperança fajuta de lutar contra a própria fragilidade.
E esse destino fatal mostra que por mais que cresçamos, não passamos de crianças que tremem de hipotermia. 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Castanho.

Ele chegou em casa chorando. Não queria demonstrar, mas acabei percebendo. Limpava os olhos a cada instante e a cara inchada o dedurava. Como de costume, falou pouco – menos ainda que o habitual – e entrou no quarto, e só saiu para necessidades fisiológicas. Não comeu e nem tomou banho.
O vi cultuar os cabelos longos e azuis desde pequeno, mas já uns dias que a raiz estava castanha, uma cor comum. Além de prender com um fiapo de tecido o que sempre fez questão de exibir tão orgulhosamente. Ele estava crescido, beirando seus valentes vinte e dois anos, mas seus cabelos azuis denunciavam sua essência de menino.
E o sorriso de outrora, forte, adoeceu. Se armava como quase uma obrigação para não se dar por vencido numa batalha perdida, para ele. O mundo mostrou-lhe os dentes e deu-lhe as boas vindas com as garras. Seu lindo cabelo azul, agora, doía. O espelho apontava a cor como um delator que denuncia um crime bárbaro. Em diante, seria ele ou o azul.
Sentou-se de frente para o espelho, completamente nu. Não soltou os cabelos, manteve o fiapo num nó forte, como a extirpar um tumor. Enlaçou a tesoura com o médio e o polegar e cortou a primeira mecha. Uma lágrima, teimosa, demorou a escorrer. Mas logo vieram muitas outras. A postura, então ereta, caiu. Seu espírito estava no chão.
A dificuldade do primeiro corte foi ofuscada pela agilidade dos cortes seguintes. Logo toda a cabeleira derramou-se pelo quarto. A aura azul foi suplantada pela realidade cotidiana, enquanto eu brechava , impotente. Sua nova cabeça marcada no espelho, tão castanha quanto qualquer outra, o tirava ainda mais lágrimas.
Ele demoraria a se acostumar com aquilo.
Recolheu todos os fios azuis do chão e jogou no lixo fora de casa.