domingo, 25 de janeiro de 2015

Pecador.



O medo me corta e me espreita, deixando um rastro de lâminas pelo meu corpo. Eu, moribundo, com febre altíssima, encolho, numa tentativa de conforto. Gravei a poesia do teu corpo no meu. Embebedei minha carne da tua. E o mapa dos teus pelos está incrustado na minha pele. O teu cheiro enlevou minhas narinas e até agora tem me castigado. E a lembrança do nosso gozo unido me furta a paz antes do sono de cada maldita noite. Contudo, de que posso eu, pecador, reclamar?  Catei sarna, minha pele arde. Blasfemei contra a promessa da autossuficiência e cometi sacrilégio contra minha própria carne. Quebrei o juramento de manter minha alma intacta e limpa. Teu suor me suja, delator perfeito. De boca seca e mãos atadas, a fome de ti é a minha penitência pela petulância de amar.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Duduzinho.



O hoje tem gosto de saudade
Do dia que nossas mãos se abrigaram
Sob minha escolha à eternidade
Para os amantes que se amparam

Ah, se tu soubeste a falta que faz
E o que eu não pagaria pela paz
De ouvir novamente dos teus lábios, em carinho
Bom dia, meu Duduzinho



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Morte.

O dia hoje acordou com gosto de sangue. Sinto morte iminente. O amor, morrendo aos poucos; pequenas feridas se transformaram num último fio prestes a se partir. A angústia ensopa o tempo de ansiedade. Mal se sabe quando será o último suspiro, o fio ainda está rente. Balançando para lá e para cá, dentre os espinhos que se aglomeraram.
Eu, tão ínfimo e sozinho, me desdobro em mil para não vê-lo desmoronar sobre mim. Questão de sobrevivência. Tento aparar os espinhos que nascem aos montes. Lixar as pontas. De tão imensos que são, por vezes perco o amor de vista. O coração palpita, penso que finalmente acabou. Mas ainda está lá, fino e frágil, balançando sobre seus algozes.
Ainda há esperança, tão fina quanto o que sobrou de um conto-de-fadas. Da escuridão pode surgir a luz, da morte, a vida. O Sol chegaria numa surdina heroica e secariam os ferrões. O céu, então, se alegraria. A tranquilidade me abraçaria num sono suave. E por todas as manhãs da minha curta vida, ofertaria uma medalha ao astro rei.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sexo.





O meu sexo entorpeceu-se de magia e perdeu o sentido. Inebriante, não mais. Há apenas queimaduras por gelo; o fogo, de certo, apagou. E as portas da virilidade abrem-se apenas sob o decreto de três palavras mágicas: eu te amo.
O amor me consumiu de cima a baixo, de cabo a rabo. E me depenou inteiro. Como uma besta desprovida de seus pelos e suas garras. Não amedronta. Não fere. Desmantelou a utilidade.
Vago, então, com excesso de espírito. O corpo padeceu e se fechou. Fora forjado da dor para amar. E caminho em direção ao céu. Morrerei de amar, já que a vida pede muito mais sangue, calor, suor e pele que um eu te amo possa oferecer.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Revolução.







Que se ame direito
Um amar de revolução
Para ver o bem tornar afeitos
Dois caminhos em devoção

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primeiros Socorros.



Eu nunca havia feito curso de primeiros socorros. Posso dizer, com toda a categoria, que não há nada mais desesperador do que ver o amor morrer.
Todos os dias, em dois ou três meses, eu contemplava uma bela árvore que nascera do lado direito do meu caminho. Por essas terras áridas, era alentador ver algo verde e brilhante que resplandecia vida toda manhã. O bom dia era sagrado.
Gostava do cheiro e do gosto. Das cores e da energia. Do balanço com o vento. A vi crescer nesse espaço de tempo. Os frutos já viriam, pude sentir, pois as flores já brotavam.
Contudo, numa madrugada houve um vendaval. Fechei os olhos e, ao acordar, me deparei com meu próprio desespero. A bela árvore estava caída no meio do caminho, empatando minha passagem, com as raízes expostas. E eu estava de mãos atadas. Tentei dar-lhe água, mas ela não bebia. Tentei dar-lhe comida, mas ela não abria a boca.
Imóvel, nem ao menos pediu socorro. Apenas deleitou-se à facilidade da morte, sem lutar ou esbravejar. Enquanto eu, vivo e pulsante, senti toda a agonia que não era minha. Chorei tudo o que não devia chorar. Paguei por um preço que eu não merecia.