quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Morte.

O dia hoje acordou com gosto de sangue. Sinto morte iminente. O amor, morrendo aos poucos; pequenas feridas se transformaram num último fio prestes a se partir. A angústia ensopa o tempo de ansiedade. Mal se sabe quando será o último suspiro, o fio ainda está rente. Balançando para lá e para cá, dentre os espinhos que se aglomeraram.
Eu, tão ínfimo e sozinho, me desdobro em mil para não vê-lo desmoronar sobre mim. Questão de sobrevivência. Tento aparar os espinhos que nascem aos montes. Lixar as pontas. De tão imensos que são, por vezes perco o amor de vista. O coração palpita, penso que finalmente acabou. Mas ainda está lá, fino e frágil, balançando sobre seus algozes.
Ainda há esperança, tão fina quanto o que sobrou de um conto-de-fadas. Da escuridão pode surgir a luz, da morte, a vida. O Sol chegaria numa surdina heroica e secariam os ferrões. O céu, então, se alegraria. A tranquilidade me abraçaria num sono suave. E por todas as manhãs da minha curta vida, ofertaria uma medalha ao astro rei.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Sexo.





O meu sexo entorpeceu-se de magia e perdeu o sentido. Inebriante, não mais. Há apenas queimaduras por gelo; o fogo, de certo, apagou. E as portas da virilidade abrem-se apenas sob o decreto de três palavras mágicas: eu te amo.
O amor me consumiu de cima a baixo, de cabo a rabo. E me depenou inteiro. Como uma besta desprovida de seus pelos e suas garras. Não amedronta. Não fere. Desmantelou a utilidade.
Vago, então, com excesso de espírito. O corpo padeceu e se fechou. Fora forjado da dor para amar. E caminho em direção ao céu. Morrerei de amar, já que a vida pede muito mais sangue, calor, suor e pele que um eu te amo possa oferecer.



domingo, 18 de janeiro de 2015

Revolução.







Que se ame direito
Um amar de revolução
Para ver o bem tornar afeitos
Dois caminhos em devoção

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primeiros Socorros.



Eu nunca havia feito curso de primeiros socorros. Posso dizer, com toda a categoria, que não há nada mais desesperador do que ver o amor morrer.
Todos os dias, em dois ou três meses, eu contemplava uma bela árvore que nascera do lado direito do meu caminho. Por essas terras áridas, era alentador ver algo verde e brilhante que resplandecia vida toda manhã. O bom dia era sagrado.
Gostava do cheiro e do gosto. Das cores e da energia. Do balanço com o vento. A vi crescer nesse espaço de tempo. Os frutos já viriam, pude sentir, pois as flores já brotavam.
Contudo, numa madrugada houve um vendaval. Fechei os olhos e, ao acordar, me deparei com meu próprio desespero. A bela árvore estava caída no meio do caminho, empatando minha passagem, com as raízes expostas. E eu estava de mãos atadas. Tentei dar-lhe água, mas ela não bebia. Tentei dar-lhe comida, mas ela não abria a boca.
Imóvel, nem ao menos pediu socorro. Apenas deleitou-se à facilidade da morte, sem lutar ou esbravejar. Enquanto eu, vivo e pulsante, senti toda a agonia que não era minha. Chorei tudo o que não devia chorar. Paguei por um preço que eu não merecia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Defesa.



Meus escudos enuvearam
Todos os espinhos que coloquei à porta de casa secaram
As janelas, agora, abertas
Tua passagem, agora, é mansa
E eu, ali dentro, de braços cruzados
Porque até mesmo as facas eu não acho mais
Nem o grito de socorro que se perdeu na garganta
Convenhamos: quem me salvaria de ti,
Se eu mesmo, o infeliz, abri a porta?

Artifício Mágico



Eu sou usuário de drogas. Bebo álcool e fumo maconha com frequência. Já até me prejudiquei algumas vezes. Esses dias, devo confessar, que me questionei. Estava saboreando meu baseado quando um menino ficou a me fitar de longe, com certa curiosidade. Não tive como não remeter aquela imagem a mim mesmo, uma década e meia atrás. Será que a criança que fui, aquela tão bem ensinada sobre o perigo das drogas, teria orgulho do homem que sou hoje? Bem, se eu me deparasse comigo mesmo anos atrás, eu sinceramente sorriria. Aquela criança, como um ser ingênuo e inocente, jamais entenderia o olhar exausto de um adulto (ai da criança que o entender), e por tamanha inocência, eu não poderia fazer nada além de sorrir para a sua rejeição. Mas agora, muito me admira ter chegado a esse ponto. Porém, eu tenho um aval: a dor da vida é cumulativa, minha pele é sensível demais, doente mesmo. Há tantas cicatrizes imensas por pequenas lâminas que me tornei feio por dentro. Talvez seja problema de queloide. Uma queloide emocional, de alma. Além de perder muito sangue em cada corte. Eu nasci malfeito, forjado à dor. E o alívio vem pouco, quase uma esmola. A droga me dá dez segundos de prazer para a escuridão imensa do tempo. Para mim, há sempre muito o que se pensar e o que se temer. Cada passo, estarei imerso às adagas. Tento sempre o caminho com a menor quantidade delas. Quase nunca o acho. O menino de anos atrás nunca foi ensinado quanto a isso. Ao contrário, deram inúmeras fantasias que foram derramadas pelo caminho, como a demarcar a volta, contudo, a vida comeu todas as migalhas. Ele ficou sem nada e muito faminto. Passou a comer drogas.