domingo, 18 de janeiro de 2015

Revolução.







Que se ame direito
Um amar de revolução
Para ver o bem tornar afeitos
Dois caminhos em devoção

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Primeiros Socorros.



Eu nunca havia feito curso de primeiros socorros. Posso dizer, com toda a categoria, que não há nada mais desesperador do que ver o amor morrer.
Todos os dias, em dois ou três meses, eu contemplava uma bela árvore que nascera do lado direito do meu caminho. Por essas terras áridas, era alentador ver algo verde e brilhante que resplandecia vida toda manhã. O bom dia era sagrado.
Gostava do cheiro e do gosto. Das cores e da energia. Do balanço com o vento. A vi crescer nesse espaço de tempo. Os frutos já viriam, pude sentir, pois as flores já brotavam.
Contudo, numa madrugada houve um vendaval. Fechei os olhos e, ao acordar, me deparei com meu próprio desespero. A bela árvore estava caída no meio do caminho, empatando minha passagem, com as raízes expostas. E eu estava de mãos atadas. Tentei dar-lhe água, mas ela não bebia. Tentei dar-lhe comida, mas ela não abria a boca.
Imóvel, nem ao menos pediu socorro. Apenas deleitou-se à facilidade da morte, sem lutar ou esbravejar. Enquanto eu, vivo e pulsante, senti toda a agonia que não era minha. Chorei tudo o que não devia chorar. Paguei por um preço que eu não merecia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Defesa.



Meus escudos enuvearam
Todos os espinhos que coloquei à porta de casa secaram
As janelas, agora, abertas
Tua passagem, agora, é mansa
E eu, ali dentro, de braços cruzados
Porque até mesmo as facas eu não acho mais
Nem o grito de socorro que se perdeu na garganta
Convenhamos: quem me salvaria de ti,
Se eu mesmo, o infeliz, abri a porta?

Artifício Mágico



Eu sou usuário de drogas. Bebo álcool e fumo maconha com frequência. Já até me prejudiquei algumas vezes. Esses dias, devo confessar, que me questionei. Estava saboreando meu baseado quando um menino ficou a me fitar de longe, com certa curiosidade. Não tive como não remeter aquela imagem a mim mesmo, uma década e meia atrás. Será que a criança que fui, aquela tão bem ensinada sobre o perigo das drogas, teria orgulho do homem que sou hoje? Bem, se eu me deparasse comigo mesmo anos atrás, eu sinceramente sorriria. Aquela criança, como um ser ingênuo e inocente, jamais entenderia o olhar exausto de um adulto (ai da criança que o entender), e por tamanha inocência, eu não poderia fazer nada além de sorrir para a sua rejeição. Mas agora, muito me admira ter chegado a esse ponto. Porém, eu tenho um aval: a dor da vida é cumulativa, minha pele é sensível demais, doente mesmo. Há tantas cicatrizes imensas por pequenas lâminas que me tornei feio por dentro. Talvez seja problema de queloide. Uma queloide emocional, de alma. Além de perder muito sangue em cada corte. Eu nasci malfeito, forjado à dor. E o alívio vem pouco, quase uma esmola. A droga me dá dez segundos de prazer para a escuridão imensa do tempo. Para mim, há sempre muito o que se pensar e o que se temer. Cada passo, estarei imerso às adagas. Tento sempre o caminho com a menor quantidade delas. Quase nunca o acho. O menino de anos atrás nunca foi ensinado quanto a isso. Ao contrário, deram inúmeras fantasias que foram derramadas pelo caminho, como a demarcar a volta, contudo, a vida comeu todas as migalhas. Ele ficou sem nada e muito faminto. Passou a comer drogas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Decrescente.



Era manhã de domingo. Estava frio, tanto fora quanto dentro. A cidade dormia e eu, ainda acordado, contava as bolhas de fumaça que saíam da quarta ou quinta xícara de café que acabara de fazer. Naquele domingo, eu estava um ano mais velho. Desliguei tudo o que me conectava ao mundo, acendi um baseado sem medo e contemplei o céu que despertava. Sozinho, como sempre estive nesses vinte e cinco longos anos, me despi em frente ao espelho. Poderia enumerar mil e um defeitos, mesmo tendo conquistado o corpo que sonhei, mas não, apenas quis me ver completo, sem pretensão lógica alguma. Meu corpo, assim como minha vida, sentiu a frieza de existir e a solidão de continuar. Estava frio, minha pele arrepiava. Estava frio, meus pulmões adormeceram. A fumaça, costumeiramente amarga, se fez doce. A costumeira euforia deu lugar à retenção. E eu procurava a cada canto algo que delatasse a poesia que perdi. A vida mostrou-se uma verdadeira droga! E o céu, acima, pintava minha verdade triste com suas cores mornas, com uma saudade que nunca consegui suprir, enquanto o dia se fazia lá embaixo. Apenas ouvia os carros. Alí, tudo pedia um soundtrack, uma melodia de tema. Mas não, apenas quis ouvir o dia monótono que estava por vir. O apartamento, então pequeno, agigantou, bem como em todos os dias que a solidão vinha fazer sala. Nessas horas de sobra de reflexão, me peguei traçando o gráfico da minha caminhada. Mais parecia uma função do segundo grau, em que o ponto máximo era exatamente aquele dia, meus vinte e cinco. A partir dali, tudo seria decrescente. Ao que dizem, a queda é mais rápida que a subida. Interessante que bem no parabéns renegado e no feliz aniversário que rejeitei, eu estaria entre os planos da vida em diante, dos dias após os vinte e cinco. Logo chegaria os vinte-e-cinco-e-um-dia, e tudo seria decrescente. Muito sempre me admirou o festejo tão intenso e fanático à vida que pessoas comuns se prestam a vida inteira. Às vezes penso ser uma auto compensação às frustrações que se acumulam pouco a pouco e, no fim, o prazer real vai ficando escasso. Eu já não me dou essa prerrogativa. Aliás, a única prerrogativa que me dei àquele dia foram o café morno e o baseado. E o barulho dos carros e dos meus pensamentos. Mas, principalmente, a luz branda do Sol que levantava, que em muito se assemelhava às manhãs da minha infância. Àquele dia, estava numa montanha russa, de mãos levantadas, preparadas para a descida. Porém, sem sustos ou solavancos, apenas a leve ansiedade para que tudo acabasse.

terça-feira, 4 de novembro de 2014



E ele pôs-se a rir do próprio reflexo no espelho. Percebi claramente que era a velha tentativa clichê de rir para não chorar. Pareceu-me dar-se conta do que era anos atrás. Arrisco a até dizer, categoricamente, que pensou que a criança que fora não se orgulharia daquele reflexo. Mas, para ele, graças aos Céus que crescera. Triste é a criança que entende o olhar exausto de um adulto. E ele, meu Deus, estava contando sempre um dia a menos nos calendários que se seguiram.