segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Castin, que matou Lusto.



Um planeta distante, muito distante. Em sua órbita no cosmos, em algum ponto de um espaço-tempo diferente, a vida brotava de seus compostos, em diversas vertentes, evoluindo conforme as leis da consciência universal. Naquele planeta havia uma espécie de pensantes, muito parecidos com os humanos. Eram espíritos e eram animais, engatinhando na eterna escala do aperfeiçoamento. Estando em qualquer parte daquele mundo, os costumes eram estritamente solitários e dominadores. Acostumaram-se a não andar de pés nus, no chão. Acostumaram-se a dominar e usar outros animais (semelhantes aos cavalos) para se deslocarem. Ainda estavam no estágio inicial de inteligência e a cultura era demasiadamente primitiva: Cada indivíduo possuía manadas de vários e vários animais. Os corcéis usados eram os que lideravam fisicamente a tropa, num dado instante, a qualquer momento; ou seja, as trocas de sela eram constantes durante o dia. A habilidade de mudança de sela foi adquirida conforme as gerações.
Aquela espécie de humanóides nunca tocava o chão, seus acampamentos eram raros e quase sempre, feitos acima do solo. Costumavam dormir no alto dos galhos entrevados das árvores grossas e secas que brotavam daquele chão morto. O dia começava assim que os sóis apontavam ao horizonte.
Castin tocava sua manada perante o deserto, no estreito equatorial e seco. Com água escassa e, consequentemente, falta de alimento, ele galopava com seus mais de vinte animais, cortando o deserto de rocha de um ponto a outro. Além de bons corcéis, ele também tinha o dom de saber escolher cada bicho.
Castin sempre regeu seus corcéis com mãos de fogo, fazia questão de escancarar o seu autocontrole e dominação aos mais novinhos. Mas desde Lusto, seu orgulho estava jogado à lama, literalmente. Lusto apareceu de repente, numa época de chuva, em algum lugar do oeste verdoso do deserto. Era filhote e Castin não soube como ele estava sozinho naquele lugar inabitado. Pegou-o para si e, aos poucos, tentou mostrar como tudo seria dali para frente. Lusto, então, cresceu, e adquiriu uma força um tanto incomum para os corcéis. Era grande, com patas grossas e imponentes, longos pelos da calda e do pescoço, jogavam-se ao vento com a velocidade que aquele corcel adquiria, quando queria. Castin ficava observando-o nos momentos de descanso que a sombra da tarde lhe dava. Em cima de um galho grosso o suficiente para aguentá-lo, os olhos de Castin fitavam a rapidez daquele animal quando não estava sob seu controle. Apesar de querer usufruir daquela força que Lusto tinha às patas, Castin achou por bem esperar a hora certa.
Era noite e nenhum amontoado de árvores secas à vista. A manada estava desgastada pelo dia árduo e o sono já balançava os olhos de Castin. Apesar de nunca ter insistido para Lusto avançar ao primeiro lugar para poder montá-lo, Castin sempre quis experimentá-lo. Uma das luas brindava o céu com uma luz verde e forte, transfigurando o chão num espelho natural de luz. Castin sorria ao vento, mesmo estando tão exausto. Tanto quanto de repente, Lusto toma o domínio da manada e Castin se vê no momento de mudar de sela. Surpreso, montou Lusto e tentou tomar as rédeas. Mas Lusto era prepotente e mostrou a Castin que do seu modo era muito melhor. Ganhou uma velocidade incrível , deixando seu montador bestificado com a sensação de voo que tivera. Em êxtase, Castin se deixou seduzir pelo vento, pela luz da lua varrendo o chão de pedra e pelo frio que sussurrava em sua pele. Estava tão hipnotizado que nem se deu conta de que Lusto atravessara uma estreita faixa verde que dava num imenso oásis no meio do deserto. Castin sabia que não era inteligente entrar num estreito verde, e ainda mais, quando a luz não enchia os olhos. O transe passou. Após o clímax daquela corrida tão intensa, corcel e montador estavam atolados num pântano.
O esforço que Castin tivera para tirar o bicho e a si mesmo daquela lama toda, foi o mesmo que tivera para esbofetear a cara cínica com que Lusto lhe fitava. E aquilo não parou ali: Lusto continuou mais e mais rebelde. Eram raras as vezes que ele tomava o controle da manada, mas quando ocorria, Castin se deixava dominar pelo instinto selvagem e primitivo do corcel. Contemplava o prazer puro e físico de um momento em que, logo após, viria alguma desgraça.  Espinhos, penhascos, um bando de lobos grandes e tantas outras enrascadas o infeliz se metia por sua fraqueza pelo prazer que a liberdade de Lusto lhe dava.
Os ciclos dos sóis foram se sucedendo. Castin estava amadurecendo e percebia que aquele corcel só lhe dava aperreios. As situações de perigo vieram aos montes depois que o tempo passou. Lusto, ainda mais forte e mais hábil, já não deixava a preguiça dominar sua vontade de estar à frente da manada para poder ir aonde bem entendesse. Isso acabaria por destruir o pobre montador e ele se dava conta disso. Passou noites inteiras pesando os prós e os contras de o corcel continuar em sua manada. O prazer da liberdade que Lusto soprava-lhe ao rosto era imediatamente abafado pelo perigo conseguinte.
Os corcéis só podiam se libertar dos montadores de uma única maneira conhecida naquele tempo: A morte. Castin era frio e rígido, mas tinha sentimentos. Além do vício da liberdade ser um forte empecilho para se livrar de Lusto, ainda havia a pena que abrandava-lhe o coração. Enquanto se dedicava a traçar o destino do corcel, seus olhos vislumbravam a felicidade de estar livre daquele animal, correndo até mesmo em círculos, ao luar. A compaixão seria mais um desafio dos dias sequentes.
Lusto parecia estar sentindo algo diferente, depois daquela noite acordada que Castin passara. Castin, tentando tomar coragem nos dias seguintes para, então, se livrar daquele problema, sentia o animal um tanto abatido. As forças para cravar-lhe o punhal na garganta eram levadas a cada dia vivido. Mas a força da natureza prevalece diante de qualquer tempo, seja lá qual for.
Estava anoitecendo e Castin travava a mesma luta diária com sua manada. Já fazia tempo que Lusto ficava com os últimos do bando e ele já se acostumara com a nova personalidade passiva do corcel. Entretanto, Lusto começou a avançar dentre os outros corcéis e Castin, mesmo estranhando, montou-o. A maneira que o corcel levantou agilidade, o cavaleiro ainda não havia experimentado. Lusto conseguiu escalar até os montantes de rochas que encontrava pelo caminho e deixou muitos de sua tropa para trás. Castin, óbvio, estava entretido demais para se dar conta. Os sóis ainda estavam à vista e, se antes o frio lhe soprava, agora eram as brisas mornas do fim de tarde. A luz dourada estendida à tapete no chão diante das patas de Lusto, as nuvens pareciam saudá-lo e a poeira que aquele bicho ágil deixava a cada atrito dos cascos com o chão extasiavam por inteiro o corpo de Castin. Entretanto, a liberdade ao extremo do limite nunca lhe custou tão caro.
 Era a estação seca, em que as bestas-feras estavam ainda mais perigosas. Apesar de hábil e experiente, Castin não conseguiu perceber que Lusto corria para a morte, ao se deparar com um desfiladeiro de ossos. Tão tarde, mas antes que nunca, Castin caiu em si, aos poucos, e viu a estupidez de, mais uma vez, deixar-se levar. Lusto, além de perder boa parte da manada, o levou para os dentes da morte, no covil de bestas-feras. Também não tão tarde, elas farejaram intrusos e logo deram as fuças. Eram três naquele lugar. Mas o suficiente para acabar com o resto do bando que restara.
Três monstros enormes e Castin, Lusto e dois corcéis restantes estavam encurralados. Uma parede de rocha de um penhasco imenso se punha à frente deles, e as bestas, logo atrás, andavam lentas e majestosas, cientes de que estavam com o banquete pronto. Castin ainda montava Lusto e, sob desespero, pensava em como sairia com vida dali. De imediato, pensou, o primeiro a ser sacrificado seria Lusto. A muito custo, conseguiu trocar de sela, tentando entregar Lusto para as bestas. A primeira – provavelmente o macho, observou Castin – mirava o montador com certa avidez. Ela o queria; não à toa, golpeou um dos corcéis com sua pata imensa e deixou-o para as outras duas, que de tão famintas, não viram Lusto correr.
A vala estreita de pedra deixava Castin cada vez mais sem opção. Não havia para que lado escapar e à sua frente, a besta parecia sorrir para ele. Dentes tão enormes... Se eram afiados, Castin não fazia questão de saber. O corcel dava seus passos para trás, até que a parede de rocha não permitiu mais. Era esse o fim de Castin. Seus olhos e os da besta estavam presos, como numa dança mortal, nenhum se atrevia a deixar escapar o olhar do outro. Castin sabia que não adiantaria sacrificar o corcel, pois a fera o queria, parecia até uma questão de honra. A passos lentos, ela se aproximava. Castin preparava o punhal; lentamente escorregava a mão esquerda até a cintura para pegar a lâmina que seria sua única possibilidade. Talvez ironia, ou talvez o destino quisesse reafirmar sua morte, alertando-o que não teria saída: as duas bestas terminaram com o corcel a elas jogado e vieram acompanhar o resto do banquete. Uma delas avançou a frente de Castin e levantou a pata. Foi violentamente repreendida pela primeira, a que almejava o montador e a briga começou. Dois titãs degladiando e a oportunidade de se ver livre dali. O corcel saltou alto sobre o embate das bestas e pôs-se a correr. Não tão longe, pois logo foi abatido pela terceira. Castin foi arremessado ao chão, enquanto a besta devorava seu último corcel. Como ele sairia dali? Nem precisou pensar muito.
Lusto surgiu de uma rocha alta e saltou bem à frente de Castin. Com certa dificuldade, levantou-se do chão, apoiando-se em Lusto e montou-o. Lusto foi hábil e conseguiu sair daquele covil. Galopava tão rápido que a paisagem parecia ser engolida pelas suas patas. Já era noite, mas Castin estava irremediavelmente decidido.
Não mais a habilidade, nem a compaixão ou o dom da montaria. O que guiava Castin era o ódio. Por causa de Lusto, agora ele perdera tudo. Não havia mais nenhum corcel e o seu coração rejeitava o único que sobrara, justo aquele que assolara a desgraça sobre seu montador. Chegou ao ouvido direito do animal e cochichou, mandando-o correr como nunca havia corrido, pois aquela seria sua derradeira. Levou, então, a mão direita ao punhal, pendurado na cintura. Enquanto Lusto corria gastando toda a força das patas, pensando assim fugir da morte. Castin enterrou o punhal na garganta do corcel e rasgou-a de baixo a cima, só largando a adaga quando o maxilar robustodo animal o impedira de prosseguir.  Lusto caiu instantaneamente, assim como seu montador.
 Deitado no chão, com alguns poucos arranhões e Lusto logo mais atrás, agonizando pelo sangramento, Castin estava satisfeito. O sangue de Lusto aguava a terra morta. As estrelas contemplaram a morte do cavalo e Castin contemplava o seu fracasso diante de um único corcel. E, pela primeira vez em muito tempo, colocou-se de pé para, com os pés nus no chão, fazer o próprio caminho.
Na verdade, tudo é mentira. Castin nunca foi um montador e nunca teve manada nenhuma. Nem muito menos poderia matar corcel algum, o qual montava, porque Castin é um centauro.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Pessoas tém um incrível ponto de visão, de nome sexualidade. Interessante como um sorriso é interpretado como algo pecaminoso e inconveniente. Assim como apenas um olhar é o suficiente para gerar guerras inteiras – desnecessárias, quero ressaltar.
Não me interprete mal, nunca! Eu não queimo, não inflamo nas labaredas do desejo, e muito menos sou uma besta. Meus sorrisos são sinceros, e são apenas sorrisos. E deixo a garantia de que meus olhares são apenas de curiosidade, sou um observador nato, com fome e sede.
Ah, e quero grifar que tenho o respeito como um de meus traços essenciais. Não levantaria um dedo em detrimento de alguém, muito menos do que une duas pessoas. Penso ser o amor algo valioso demais para ser violado.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012


Minhas palavras são esguias, eu sei.
Escorregadias também, não é?
Eu também sei.
Desculpe, é que não sou muito bom após os limites de mim mesmo. Aqui dentro, tudo faz sentido.


terça-feira, 20 de novembro de 2012

Palavas são a minha virtude.
Pessoas são ingratas.
Agora, será 1g de frases por 1 kg de "muito obrigado".
Pagamento adiantado, por gentileza.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Desbrinde à vida.


Às vezes, eu canso de tentar. Eu caí aqui de para-quedas, sem bagagem nenhuma e sem ao menos uma recepção de boas-vindas. Ando pelas trilhas desse mundo numa bolha isolante. Tento arrancar um sorriso meu ao ver os outros, mas é muito complicado. É frustrante ver que, para eles, é tão simples, tão fluente. E ainda te vêem como um completo estranho, te marginalizam por ter uma diferença astral. É quando você se sente a pior das criaturas. Não há palavras, não há olhares, nada! O que fica é a perda de tempo. Sim, porque é quando você desperdiça umas boas horas, com a falsa esperança de que tudo vai mudar daquele instante em diante. E é nessa cena que entra a realidade, como um trator, sem piedade alguma. Destrói tudo. Olha, devo confessar que, a essa altura, às vezes nem dói tanto assistir tudo de braços atados, trabalhando apenas a favor da gravidade. Mas as forças se vão. Se vão e deixam um vazio enorme como recompensa por não blasfemar contra do destino. Há dias em que esse baque é leve o suficiente para que eu não chore, mas há outros que fico estirado ao chão, tentando ao máximo não me mover nenhum pouco, pois só o fato de respirar dói o bastante. É aí que geralmente olho para o céu e faço uma pergunta: “O que queres de mim, Senhor?”.
Os dias de me perguntar constantemente o que tudo significa ainda não se foram. Eu não entendo esse mundo. Parece que o DNA humano não configurou muito bem com meu espírito esquizofrênico, diferente, distante. Eu vivo pra desvendar as pessoas, vivo para tentar achar uma brecha nessa bola de aço maciço em que vegeto, e que me impede de viver em comunhão total. Ela me proporcionou uma individualidade fora do comum; sinto que por mais que eu mostre todo um jardim que cultivei durante toda a vida, os outros nunca vão parar para enxergar. Há muitos instintos guiando essa espécie e acabam por ser mais individualistas do que eu. Os interesses corrompem as relações, deixando momentos de felicidade descreditados. O amor é vivido em migalhas, diante de muita coisa desnecessária. Há um peso por amar. Há o preço que o amor paga em sangue pelo próprio individualismo e o individualismo alheio. Culpa apenas da evolução.
Já tentei sobreviver aqui, em minha forma natural. Estive, durante muito tempo, com o espírito acima da carne. Mas isso despertence à realidade desse mundo. Há tantas adagas voando em todas as direções que estava insuportável viver desse jeito, e a escolha foi feita. Caso eu não me adaptasse, não suportaria muito tempo. Sinto que há algo a fazer aqui, algo grandioso, pelo menos pra mim. Mergulhei na poça de lama. Sendo melodramático, mas não menos realista, talvez seja esse meu último suspiro. Seja essa a mão que eu estendo à vida neste planeta, o último esforço que faço para conseguir ficar de pé e continuar. A lama, que hoje impregna meu corpo, é a proteção que lanço à minha alma, já que, aparentemente, não há pele e ossos suficientes para comportá-la.
Todos esses problemas seriam resolvidos por um mediador. Há alguém que o destino sugou para longe de mim. Há alguém que deveria estar aqui, mas não está. Esse alguém seria meu mestre, assim penso. Sinto que não aprendi a respirar os ares daqui, não aprendi a suportar o peso constante sobre a cabeça, não aprendi a usar meu corpo. Isso é doloroso demais. Tenho que aprender tudo na marra, sozinho. É aí que as noites vêm e me mostram que estou muito só. Há manhãs que vejo o céu, pergunto por respostas; pergunto quando estarei completo novamente. Não sei se encontrarei o fio que unirá todas as minhas partes como se deve, quem sabe não está em alguma esquina?
O caminho está mais nublado a cada passo. E eu morro de medo. Tenho medo por não enxergar, por não ver onde estou pisando e onde meus passos vão me levar. Tenho medo de me deparar num lugar estranho. Se bem que é tolice de minha parte, já que eu sou o retrato nítido, em 3x4, da diferença. Mas o medo é uma das emoções humanas e eu sou humano agora. A lama pode me deixar mais vulnerável, então, já que não tinha tanto medo dessas estradas antes. No mais, aos dias, vou arrumando a mala. Deixo-a preparada, embaixo da cama. Algum dia eu terei que voltar, já que aqui sou estrangeiro. E tenho que confessar, de coração aberto, que sinto muita saudade – nem sei de que, exatamente, mas sinto. 

quarta-feira, 7 de novembro de 2012


Não gosto de ouvir as vaidades alheias,
Meus ouvidos estão cansados demais para trabalhos desnecessários;
Muito menos a gabança de uma vida recheada de tantos tesouros terrenos, desprovidos de brilho e de densidade;
Ainda, não suporto futilidade de uma estética fria, superficial e encalhada numa auto-aclamação permanente, na sede de se suprir uma cômica carência de aceitação.
Quero apenas o que for meu por direito. Sim, pois um trabalho tão árduo de procurar diamantes em meio às pedras secas, que se esfarelam ao toque, me dá pleno direito sobre as raras jóias que encontrar pelo caminho. E ai de quem tentar tomá-las de mim! Ai!

domingo, 4 de novembro de 2012

De Verão.



Me ensina a brincar contigo, menino
Espera eu me transformar,
Me diz como me despir de mim
E ir pro mar, vagar.

Não sei andar como teus passos,  menino
Talvez eu não precise igualar,
Confia teus segredos a mim
Pra gente poder amar.