segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Há certas noites que gritos de saudade ficam presos entre o controle e a loucura. Se eu me calei, foi a coação do medo de ser tido como louco. Mas, levando em consideração à insanidade de continuar os passos arranhando o chão que piso, suplicando aos céus um toque que seja, começo a me perguntar o que é loucura, afinal...

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Eu afirmo, chamo-me Ganímedes.


Juntei os desenhos infantes e os joguei numa pasta qualquer, sem muito cuidado.
À minha infância, fiz planos,
Ao resto, os refiz.
Eu sonhei, sim, com uma força acima do normal,
Desejei também os resultados,
Eles não vieram, sabe?
A caminhada acabara por me revelar tantas outras,
Descobri que minhas pernas não são tão resistentes
E que a subida é árdua demais,
E além do que, descobri que não sou divindade,
E sim, mais um de carne e osso a compor a multidão.
Faz diferença?
Talvez...

Deparei-me com os materiais do pôr-do-sol,
E com borboletas, já secas, em decorações sem bom-gosto,
"O amor não é absoluto, temos que o fazer crescer por entre as rachaduras"
Expremi de algum lugar, quiçá agora mesmo.

Certa vez ouvi o "amargo" me nomear,
Não os culpo, a vida clama pelo verde,
Mas para quem atravessou um mar de pedras a nado nu,
E deixou para trás aquela pasta de desenhos no meio do nada,
O amargo não seja tão ruim, afinal ainda há um sabor ao chegar às rochas,
Sabor este que me baba a pele nua, ao redescobrir minha própria nudez.
Dentre os meus traços exacerbadamente humanizados, há um bicho.
Eu afirmo, chamo-me Ganímedes,
E chegando onde hoje estou, aguardo de bom grado as garras da águia.

domingo, 6 de novembro de 2011

O Sem-alma.

Lá vai ele, lá vai
Perambula pela Terra querendo comida
Querendo água, querendo paz
Guerreando contra a ditadura do tédio
O algoz insuportável
Não grita, não chora
Não sorri, não enxerga
Contra o tórax bate uma pedra
Levando seu sangue
Roubando seus meios
Não há laços com esses ou aqueles
Nem mesmo a mulher que lhe deu os seios
O olhar falecido de nascença não fala
Munido de perfumes e falácias
E os sorrisos graciosos guardados na mala
De porta em porta
De tempos em tempos
Apontam-lhe os dedos, começam a julgar
Se vê como destino, refazer n’outro lugar
Caminhando pelas pedras, adiante, uma clareira
Logo, um penhasco, acima uma ameixeira
A vida ficou sem motivo, de repente
O tédio lhe estrangulou o ser como uma serpente
O céu responde ao sem-alma
Nunca haverá silêncio, nem paz, nem calma
A certeza lhe vem: Sua vida é uma droga
Abre os braços e...

sábado, 5 de novembro de 2011

A Lenda de Jaebé (João-de-barro)


Contam os índios que foi assim que nasceu o pássaro João-de-barro:
Segundo a lenda, há muito tempo, numa tribo no sul do Brasil, um jovem apaixonou-se por uma moça de grande beleza. Jaebé, o moço, foi pedi-la em casamento. O pai dela então perguntou:
- Que provas podes dar de sua força para pretender a mão da moça mais formosa da tribo?
- As provas do meu amor! - respondeu o jovem Jaebé.
O velho gostou da resposta, mas achou o jovem atrevido, então disse:
- O último pretendente de minha fila falou que ficaria cinco dias em jejum e morreu no quarto dia.
- Pois eu digo que ficarei nove dias em jejum e não morrerei.
Toda a tribo se admirou com a coragem do jovem apaixonado. O velho ordenou que se desse início à prova. Então, enrolaram o rapaz num pesado couro de anta e ficaram dia e noite vigiando para que ele não saísse nem fosse alimentado. A jovem apaixonada chorava e implorava à deusa Lua que o mantivesse vivo. O tempo foi passando e certa manhã, a filha pediu ao pai:
- Já se passaram cinco dias. Não o deixe morrer.
E o velho respondeu:
- Ele é arrogante, falou nas forças do amor. Vamos ver o que acontece.
Esperou então até a última hora do novo dia, então ordenou:
- Vamos ver o que resta do arrogante Jaebé.
Quando abriram o couro da anta, Jaebé saltou ligeiro. Seus olhos brilharam, seu sorriso tinha uma luz mágica. Sua pele estava limpa e tinha cheiro de perfume de amêndoas. Todos se admiraram e ficaram mais admirados ainda quando o jovem, ao ver sua amada, se pôs a cantar como um pássaro enquanto seu corpo, aos poucos, se transformava num corpo de pássaro!
E foi naquele exato  momento que os raios do luar tocaram a jovem apaixonada, que também se viu transformada em um pássaro. E, então, ela saiu voando atrás de Jaebé, que a chamava para a floresta onde desapareceram para sempre.
Podemos constatar a prova do grande amor que uniu esses dois jovens no cuidado com que o joão-de-barro constrói sua casa e protege os filhotes. Os homens admiram o pássaro joão-de-barro porque se lembram da força de Jaebé, uma força que nasceu do amor e foi maior que a morte.

domingo, 16 de outubro de 2011

A Menina do Cabelo Rosa.

Naquela tarde de inverno, o frio tinha dado uma trégua. Aproveitei para descer à calçada e fumar um pouco. Encostado num poste de luz, permaneci, quieto, me deliciando com meu cigarro. Eis que, de alguma esquina, ela surge – eu sabia que ela passava por ali naquele exato horário –, seus fios de cabelo tingidos de rosa dançavam uma valsa suave, regidos pela senhora brisa, que ditava, delicadamente, os passos da dança. Seu andar diferenciado e excêntrico me prendeu a atenção por segundos antes de tentar interpretar a roupa que ela carregava no corpo. Desde o tempo que a notei, em cima do meu parapeito diário, percebi uma grande criatividade. Lembro-me até do primeiro sorriso que vi brotar do seu rosto imponente, mais parecia uma moleca! Seu jeito brincalhão e tantas outras coisas. Mas ali estava eu, e lá vinha ela. Eu a observava vir em minha direção e tentei disfarçar. Abaixei a cabeça, fitando a fumaça do meu marlboro – que segurava com o indicador e o polegar – se dispersando no ar e ouvia atentamente o “toc toc” dos seus sapatos. Poucos segundos e levantei a cabeça, vendo-a com um sorriso estendido, há poucos metros de onde estava, continuando em minha direção. Sabe, por um momento eu pensei que aquele sorriso era meu, cheguei até a arquitetar outro de retribuição, mas ao pousar o olhar para trás, vejo que ela estava acompanhada. Sua turma a aguardava logo atrás de mim. Apaguei o cigarro e voltei ao meu parapeito, o frio voltara.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Maçaneta.


Diante de uma porta colossal cheia de espinhos, me vem o medo falar sobre conseqüências, e ao olhar para trás, apenas a visão de estradas torpes que fiz questão de atravessar, mas que talvez tenham me levado a algum lugar. Há tantos caminhos, assim julgo, depois desse grande portal que me faz tremer. Não tenho mais espaço para o cigarro, ou asas e nem mesmo para vôos clandestinos. ‘Enraizar e amadurecer’, ‘enraizar e amadurecer’, ‘enraizar e amadurecer’... Como caminhar? ‘Enraizar e amadurecer’, repito outra vez perdida. E vem o medo, novamente, soprar aos meus ouvidos o que eu tento afastar da minha mente nas noites solitárias. Carrego planos amadores numa grande pasta embaixo do braço, aguardando mais e mais folhas rabiscadas de planos e metas traçadas ao longo do caminho que me levar; nunca sonhos, jamais! O destino me aguarda, sentado na sua velha cadeira de balanço, cujo ranger irritante, consigo ouvir antes mesmo de cruzar esta maldita porta.
Ao puxar a monstruosa maçaneta e dar o primeiro passo, não haverá mais como retroceder e assim, o amor ficará cru. Não sonharei; cada vez mais adentro num mundo de solo escaldante e água fresca escassa. Não sonharei; isso é regalia para esquizofrênicos. Eu juro que não sonharei mais após passar por esta porta.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"Ela não existe!"

Eu era um pinguinho de gente. Tinha entre dois e três anos, algo assim. Minha babá, Paula, acabara de me levar ao trabalho de mamãe, e já estávamos voltando à rodoviária. Passávamos por um cruzamento – até hoje ele existe – cheio de curvas, aonde os carros iam e vinham, e confundiam qualquer um. Lembro-me bem que ela segurava a minha mãozinha pequena e andava, praticamente me arrastando. Ela era impaciente. Tinha medo de perguntar-lhe, mas a menina me fazia falta. Eu lembrava-me dela, e a admirava também. Será que ainda lembrava seu nome? Talvez, não recordo-me bem. Mas eu sorria ao lembrar de seus cabelos, do sorriso e da sua postura também.
Eu tinha medo da minha babá, contudo, eu a perguntei sobre a menina, aquela que me fazia tanta falta, de quem eu tinha poucas imagens e grandes sentimentos.
“Ela não existe! Agora cala a boca e anda.” Resmungou.