domingo, 10 de julho de 2011
Palavras.
A única coisa de que me lembro é que nós estávamos na sala, sentados no tapete que mais parecia algodão ao se pisar. Ele estava sem camisa e a luz de fim de tarde que adentrava pela fina cortina que cobria parcialmente a janela da sala, o deixava muito sexy e ao mesmo tempo o transformava numa criatura sem malícia, era algo surreal. Se, por uns flashes de poucos segundos me dava tesão, aquela imagem despertava em mim algo muito mais além da carne.
Ele me olhava com um sorriso tão doce que os meus instintos responderam àquele estímulo, esboçando outro sorriso que, meus próprios instintos, o tornavam inegavelmente sincero. O toque de suas mãos me ensinava tal linguagem que me instigara a curiosidade. As primeiras vogais, letras e até mesmo uma palavra: Sempre – me disse o significado depois de eu ter acabado de repetir os gestos. Um momento tocante ali se deu assim que acabei de terminar a tal palavra, ele se aproximou mais um pouco e ficou a explorar minha mão esquerda com a dele. As sensações que aquele toque inocente me transmitia, eu posso ilustrar como uma bagunça de sabores e texturas que nunca havia provado antes, e, com todos aqueles carinhos em minha mão canhota, ele me ensinava mais letras e palavras.
quinta-feira, 7 de julho de 2011
Deserto.
Hoje eu, incrivelmente, me peguei sem direção mais uma vez. Algum sentido além dos cinco que, normalmente, é dado a todo pobre mortal, me dizia que sempre houve alguma coisa errada. Eu não chorei e nem vou chorar, não vejo motivo. História antiga que me fazia ter certeza de alguma coisa nessa vida, mas na verdade, tinha lá suas farsas. Depois de tanto tempo, mais alguma pessoa mascarada veio me dizer, num timbre familiar, “Olá”. Eu conhecia sua máscara e não sua face. Dói dar-se conta disso, mas o caminho está cada vez mais seco e árido, imbrotável e deserto. Era mais um túmulo que eu deixava pra trás, sem crucifixo e nem identificação.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Bater: Falsa Coroa.
Eu me fiz acreditar, criança tola. Olhando-se para o espelho agora, o que vês? Mas antes de começar, dispa-se do véu opaco da vaidade da sua individualidade, olhe-se com olhos de outrem. O que vês? Vês a tua estatura baixa, teu cabelo duro e teus olhos de cachorro morto. Por tanto, tire essa coroa de plástico que enfeita essa tua cabeça grande, cuja mesma coroa, julgas ser de ouro maciço; não é, ela quebra, é plástico, dos mais vagabundos. Aconselho-te também a quebrar esse pedestal de barro que exibes, pensando ser mármore. Ah, e teu preço é baixo. Se não compras nada, é porque pedes mais do que tu podes pagar. Não viu o casaco de pele de grife? Só estava no teu corpo por ser defeituoso, caso contrário, não irias nem poder tocá-lo. Caia na real, meu bem, hoje é lei de oferta e demanda, compra e venda, até os próprios sentimentos estão expostos em vitrines; portanto, não chore a sua solidão, não grite por socorro, porque sei que você é de escolher a dedo. Cuidado na hora de apontar.
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E não me venha com réplicas, meu papel é bater. Você escolhe se abraça a dor ou vira as costas.
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E não me venha com réplicas, meu papel é bater. Você escolhe se abraça a dor ou vira as costas.
domingo, 3 de julho de 2011
Outono da tarde (a dream).
Depois do café da tarde eu passei pela Torre Eiffel. Alguns passos mais adiante e eu jurei ter te visto por lá, dentre as poucas pessoas e aquela atmosfera descolorida e opaca que eu tanto gosto. O pôr-do-sol durou mais que o habitual e a brisa fresca da primeira tarde de outono em Paris me fez lembrar você. A saudade me apertou o peito, mesmo. Tanto que imaginei te abraçar ali; foi meio maluco isso. Olha, só quero dizer que te amo. Não se esqueça de mim, que eu estarei com você, mesmo que não me lembre de ti a maior parte do tempo. Agora tenho que ir, vou acordar.
Se cuida, meu amor.
Se cuida, meu amor.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
Embriagado.
Embriagado. Cheguei em casa e caí na cama, embriagado. Talvez só um pouco, o que me permitiu todo o ritual das outras noites normais. Eram apenas fantasias que eu usava como calmantes, nunca passou disso. Eu não me toquei, nunca fiz isso. Se eu já tentei? Bem, já. Tenho um pau entre as pernas e queria saber usá-lo como tal, manobrar e extrair aquela dor chata incrivelmente prazerosa que todos os machos que passaram pela terra tanto amam. Mas eu não sinto. Muitas vezes chego a pensar que não aprendi a ser macho. Em outras, penso ser tão híbrido que me tornei um terceiro gênero; sem pênis e nem seios, ou, paradoxalmente, até os tenha. Num banheiro sujo, fedendo a mijo acumulado, é onde eu tenho a percepção da diferença. Acho até que deveria ser naquele lugar que eu deveria começar. Não sou macho. Numa sala de mulheres, também vejo convergências, o que me dá a certeza de que também não sou fêmea. Num caminho perpendicular, fui ao médico. Minha taxa de hormônios é baixa, provavelmente.
Atrás.
Colorir.
Nas páginas do caderninho, havia mais pinturas e desenhos, muitos sobre seu futuro, do que as lições escolares. Chegou a pintar a professora, pois dizia que ela não conseguia ver cores na coitada. Eu não a culpo, eu também ganhei um caixinha de lápis na minha infância, mas isso já faz muito tempo e hoje não consigo enxergar as cores que minha adorada neta tanto distribui por aí.
- Joana, venha cá. – Chamei-a, interrompendo o que fazia.
- Oi, vovô. – Disse, caminhando até mim.
- Porque você vive pintando as coisas? – Questionei-a, dando-lhe um beijo na testa.
- Ah, vovô, eu não consigo ver cores nas coisas. Não gosto disso.
- Sabe Joana, eu era igualzinho a você na sua idade, e também tinha uma caixinha de lápis de colorir e saía rabiscando tudo o que via.
A menina estava atenta às minhas palavras e eu continuei:
- Mas, o vovô já não enxerga mais as cores que estão nesses lápis que te dei. Hoje, o vovô enxerga como todo mundo, em preto e branco.
Joana olhava confusa para mim, enquanto um sentimento de compaixão tomava conta, me abraçou e começou a derramar pequenas gotículas em meus braços.
- Ai vovô, quer que eu te dê meus lápis? – Perguntou Joana, olhando-me.
- Minha pequena, não chore... Eu não posso mais ver cores, é verdade, mas um dia eu pude, assim como você vê. Posso te contar um segredo?
Joana tirou uns fios de cabelo do rosto e com a cabeça, respondeu que sim.
- Olha aqui nos meus olhos. Repara bem... Consegue ver? – Perguntei, puxando a pálpebra inferior com dois dedos.
- O que vovô?
- Olha direitinho, Joana.
Ela observou, atenta aos detalhes e logo achou o que eu me refiria.
- Vovô, são essas pintinhas coloridas dos seus olhos?
- Eu sempre fui um menino esperto, quando vi que meus lápis iam acabar, guardei um restinho e colori o fundo dos meus olhos. Vez ou outra, eu ainda vejo as cores, quando me dou a esse prazer. Elas estão guardadas dentro de mim e jamais deixarei que elas morram.
Joana ficou contente em saber do meu segredo, me deu um beijo no rosto e voltou ao que sempre fizera, colorir. E lembro-me de ter rezado naquela noite, rezado muito, para que os lápis de Joana durassem pra sempre, ou o maior tempo possível.
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