Foi ao som do ventilador e à luz fraca do nascer-do-sol que me vi seco e sem ar. A madrugada fluía horizonte adentro, enquanto as estrelas iam dormir. Eu continuava acordado, me deitei sem um “Boa Noite” e não terei o meu “Bom Dia”. A rotina anda sem gosto, me contento com pequenos frascos e a abstinência me acompanha. O dia seria um domingo, sem religião e sem filme ao entardecer.
domingo, 17 de abril de 2011
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Boneco.
Há um fio de dezenas de metros passando por dentro do meu corpo oco, mantendo todas as minhas pequenas partes fixas umas às outras. Pareço ser de aço, mas não sou. Somente uma sorte me protege das pancadas, ou seria experiência? Já quebrei tantas vezes...
Tenho uma perna menor que a outra, meu nariz é de uma cor diferente de todo o resto do látex que me envolve; meus olhos são de um tipo de acrílico muito fraco e as asas que existiam nas minhas costas estão quebradas, restam apenas as elevações na parte de cima. Nunca foram perfeitas mesmo...
Meu nome é imperfeito, eu sei. Estou na terceira prateleira de uma lojinha chinfrim na cidade de São Nunca, de onde diversas vezes eu saí e pra onde eu sempre volto. Estou quebrado, ultrapassado e sujo, aguardando a eternidade dentro de uma caixa velha, mas nunca deixei de ser um brinquedo. Só não tenho com quem brincar.
Tenho uma perna menor que a outra, meu nariz é de uma cor diferente de todo o resto do látex que me envolve; meus olhos são de um tipo de acrílico muito fraco e as asas que existiam nas minhas costas estão quebradas, restam apenas as elevações na parte de cima. Nunca foram perfeitas mesmo...
Meu nome é imperfeito, eu sei. Estou na terceira prateleira de uma lojinha chinfrim na cidade de São Nunca, de onde diversas vezes eu saí e pra onde eu sempre volto. Estou quebrado, ultrapassado e sujo, aguardando a eternidade dentro de uma caixa velha, mas nunca deixei de ser um brinquedo. Só não tenho com quem brincar.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Barquinho.
Não deixe o rio secar
Para que eu cuide dos meus barquinhos
Ninguem me ajuda a cuidar
Eu cuido sozinho.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
ParaPeito.
Eu não saía de casa. Passei a viver enclausurado pelas paredes daquele apartamento que cheirava a mofo. Cortinas velhas, cadeiras velhas, chão esmagado por meus passos de ida e volta. Copos quebrados ainda me serviam e eu ainda os usava, garfos tortos e muita coisa fora do lugar. A janela era o meu passatempo de qualquer hora do dia, observando a opacidade das pessoas que andavam pelas ruas, nem se dando conta de minha existência.
Pessoas batiam à minha porta, o meu sorriso era notável do outro lado da rua, até eu descobrir que se tratava de mais opacidade. Eram todos muito neutros. Eu voltava ao parapeito. Cigarro como mestre sala e sempre de pernas cruzadas, eu apenas observava, descendo com o mesmo sorriso sempre que solicitado e voltando para o mesmo lugar. Eu tomava banho morno e alguns remédios para dormir como o leite quente da madrugada.O cheiro das rosas era sempre agradável, a areia da praia e o amanhecer. A morosidade das músicas que eu escutava, casava muito bem com as fotos de infância rasgadas que eu guardava debaixo do travesseiro.
Até agora eu ando em círculos, mas já fiz meu pé-de-meia. Não posso passar dia e noite vagando pelas ruas, pois o quebra-cabeça ainda não se completou e só Deus sabe quando será. Eu sei que falo em fragmentos e nem sei onde eu queria chegar. Vou pegar meu cigarro e voltar pro meu lugar.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Peso.
Passaram alguns dias e algumas semanas. Eu não ligaria, não falaria e muito menos olharia. Apenas o fato de você ainda me acompanhar em cada esquina, numa forma de esperança, era um assombramento. Eu que sempre fui avesso e você tão vaidoso, eu que sempre fiquei na defensiva e você que sempre oscilava, entre a procura e a aversão. Enchia-me de dúvidas e apenas uma certeza crescia: Você era mais um D. Juan. Mas, infelizmente, eu sentiria saudade. Não me acostumei a não te ver entrar ou sair sem dar um pio. Não me acostumei sem tuas fugas de tuas próprias procuras. E, principalmente, não me acostumei a não ter que desvendar cada atitude, cada virgula e cada entrelinha proveniente de ti. Mas eu preciso lembrar que você partiu sem ao menos fazer barulho ao fechar a porta.
Tenho que confessar, apesar de todo o peso do orgulho que carrego sobre meus atos, eu confesso. Tenho duas fotos tuas e um gráfico. Tenho duas músicas tuas e a lembrança da camisa azul. Tenho duas doses de esperanças, neutralizadas por vinte quilos de orgulho – "Será tão pesado assim?". Talvez eu nem queira saber.
terça-feira, 5 de abril de 2011
Voar
Chegamos então até o ponto mais alto da cidade. Uma igrejinha servia de atrativo e logo um pouco mais a frente estava um precipício. Percebi que ele olhava fixamente para o céu e se perdia em um devaneio que chegava a dar medo. Chamei-o pelo nome:
-Jonas!
Ele interrompeu seu olhar para o céu e me fitou. O olhar tornou-se um tanto doce e ele disse com uma voz que jamais esquecerei:
-Oi...
Sorri. Sorri e fui até perto dele para dar-lhe um abraço, que ele retribuiu com muito carinho. Voltou a admirar o céu e a grandeza que se estendia abaixo do precipício. Ficou assim por um tempo e não ousei pedir-lhe atenção.
-Você já sentiu a sensação de voar? - Disse-me ele ao pé do ouvido.
Estranhei a qualidade da pergunta e respondi que não, nenhum ser humano está permitido a sentir tal sensação.
-Eu sei voar. – Afastou-se, abriu os braços e atirou-se de uma altura de mais de mil metros.
Foi um momento rápido que demorou um bocado a ser processado por mim. Sinceramente, custei a entender que ele realmente tinha feito aquilo.
-Jonas!
Ele interrompeu seu olhar para o céu e me fitou. O olhar tornou-se um tanto doce e ele disse com uma voz que jamais esquecerei:
-Oi...
Sorri. Sorri e fui até perto dele para dar-lhe um abraço, que ele retribuiu com muito carinho. Voltou a admirar o céu e a grandeza que se estendia abaixo do precipício. Ficou assim por um tempo e não ousei pedir-lhe atenção.
-Você já sentiu a sensação de voar? - Disse-me ele ao pé do ouvido.
Estranhei a qualidade da pergunta e respondi que não, nenhum ser humano está permitido a sentir tal sensação.
-Eu sei voar. – Afastou-se, abriu os braços e atirou-se de uma altura de mais de mil metros.
Foi um momento rápido que demorou um bocado a ser processado por mim. Sinceramente, custei a entender que ele realmente tinha feito aquilo.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
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