domingo, 13 de fevereiro de 2011

Dez e 9.



A imagem que vejo hoje no espelho
Parece muito com a que vi ontem e anteontem
Meus cabelos só estão a menos de um milímetro maiores
Vejo a barba que se projeta no inferior da minha face
Minha pele ainda parece a mesma
Mas não tem o mesmo significado tal imagem que tinha ontem
Hoje estou um ano a frente, ou a menos
Hoje não tenho a membrana fina e espiritual que recobria meus olhos
Vejo tudo com olhos de águia e ganância
Bebendo algo com álcool e sentido o gosto do adulto
Não, eu não gosto, se quer saber
Mas sei que logo terei que começar a caçar e colocar comida na mesa
A imagem vai se dicipando ou se reconstruindo, é apenas mais uma idade
Um número, um bolo e um presente
Mas, na verdade, me olhando desse jeito
Tento me livrar de carne putrefa nos meus ombros e costas
Cabelos com pontas duplas e minha saliva velha que se acumula
Tenho a plena convicção de que sou livre e me gosto
Me amo, me adoro a ponto de não deixar a parasita ir embora
Ela tem vida própria e sabe se defender muito bem
O caminho continua largo e vazio, ouço apenas os meus paços
Mais um ciclo recomeça hoje
Mais bagagem pra carregar e coisas a serem esquecidas
Páginas que devo rasgar, mas estão guardadas a sete chaves
Não fui tão adepto disso, mas o clichê cai tão bem agora...
"Seja o que Deus quiser. Amém!"

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Dos Outros.


Eu leio, gosto de ler.
A imensidão do meu quarto de alguns poucos metros quadrados
Me deixa suficientemente livre para ler
Eu devoro os traços dos outros, os laços dos outros e o destino dos outros
Levanto da cama, bebo um copo d'água e volto
Para continuar a devorar a vida dos outros
É, eu não tenho ações, pois devoro as dos outros
E acabo aprendendo atravéz das foleações das páginas
Que lá fora há chuva, vendo, gostos, pessoas
E penso que talvez um sorriso cru seja melhor...
Quer saber? Cansei.

sábado, 29 de janeiro de 2011

MonoTexto 10 : Espelho.

É o que o espelho me revela:
Tenho a aparência ensopada, pareço ter vindo da chuva
Cabelos, olhos e até as roupas
Pele branca, pálida, fria, solitária
Me vejo distante, não tenho como me encarar nos olhos
Estes mesmos que saem em busca do ambiente em que estão
De maneira tão, mas tão estranha que chama a atenção
Eu pareço estar morto
Na verdade eu tenho asma, a cada segundo suspirando por vida
Me recolho tentando achar as respostas nas núvens pela meia-noite
Procuro nessa imagem refletida agora, as asas que tenho certeza que estão aqui
Cadê? São invisiveis por um acaso?
Não fazem parte de minha fé, apenas de mim mesmo
Mostrando a diferença que ninguém consegue enchergar
Me fazendo abaixar a cabeça e simplesmente retornar para o meu quarto
A pé!
E me deixando, mais uma vez, com o espelho como única opção
Me obrigando a olhar cicatrizes, sedas superficiais e até algo singelo
Que pode ser tão falso quanto a natureza humana que tento aprender como uma criança imita um mímico
Talvez eu seja mesmo é obsecado por esse pedaço de vidro inútil pendurado na minha parede.

À sociedade


... E me colocaram à margem. E eu, sentando-me numa rocha, disse:
                      - É aqui mesmo que eu quero ficar!

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

MonoTexto 09: Dança.

O meu desejo eu te provo que te quero
Provo com a vontade que me magnetiza a você pelos meus lábios
Com a necessidade que meu corpo tem de sentir o teu perto
O meu nariz que procura o teu cheiro e a minha língua que anseia o teu gosto
O que meus ouvidos captam de você soa como uma melodia tão gostosa
Meus olhos se fecham e recriam bobeirinhas que me arrancam sorrisos de vergonha
Minhas costas sonham com o teu abraço
E minhas mãos tremem quando te vejo a poucos metros
O coração samba e me tira a força das pernas e o ar
Me concede uma dança, apenas uma dança?

sábado, 15 de janeiro de 2011

MonoTexto 08: Eva (Mutilado).

E me cortou como uma lâmina fina e afiada
A dor de um espaço não preenchido durante uma vida inteira
Num mísero segundo e o peso da ausência do que não tive me esmagou por mais um minuto de eternidade
Tudo culpa dessa melodia maldita e doce
Que me acaba por lembrar do que tento ignorar dia-a-dia
Falta o açucar no meu suco de morango
Na verdade, sempre faltou
Falta o molho na massa da minha pizza
É, sempre faltou, na verdade
Um sorriso, bermuda, areia e um portão se abrindo
"Acostume-se à sua mutilação"
Eu apago e tento me levar.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

MonoTexto 07: Parado.

Saí e esperei na calçada de casa, tínhamos combinado assim.
Calça jeans, camisa xadrez, all star e a mochila pesada
Mão direita no bolso e um guarda-chuva impedindo que me molhasse
Olhava de um canto a outro a rua ensopada
Pensei, verificando o que levava:
Uma foto tua, dois livros de planos escritos madrugadas a fora, três quilos de esperança, um frasco de sexo, e meio mundo de insegurança.
Peguei o celular e fiz a chamada:
"Alô, sabe que estou te esperando, né? Você vem?"